As entrevistas de Eunice Khoury Pacelli:

Marcia Agrau

*EKP Como é ser mulher e fazer literatura?*

A poetisa Marcia Agrau_da InternetQuando comecei a cursar o Clássico e estudar Filosofia, meu avô querido, que quase
se ordenara como padre e estudara muito desta matéria, me ensinou: "primo
vivere, deinde philosofare
", isto é, "primeiro viver, depois filosofar" . Nunca
mais me esqueci disto. Portanto, pra mim, é:" primeiro ser mulher, depois
escrever ". Donde escrever passa a ser uma decorrência do meu estado de ser,
mulher. Sendo assim, o meu jeito de escrever é feminino, isto é, advém do meu
jeito de ver e viver a vida sendo uma mulher. Percebo que as mulheres têm uma
perspectiva diferente da dos homens sobre a existência. Talvez por estarem mais
próximas da natureza por seu ciclo menstrual (influenciados pela Lua e pelas águas),
por seu corpo abrigar e trazer para a vida outro ser (novamente a influência da Lua e das águas),
depois cuidar da cria e ter que conviver com os pés no chão do "cocô está duro,
cocô está mole", vômito, dores, febres, doenças, fragilidade, proteção e decorrente superação.

*EKP O tempo é seu amigo ou inimigo?*

MA - O tempo é ,simplesmente, sua Majestade O Tempo, há que respeitá-lo assim como
ao mar porque como o mar tem muito mais poder do que nós. O Tempo não é nem
amigo nem inimigo. Se nos dá coisas maravilhosas como a experiência, também nos
deixa marcas do lado de fora que, na maioria da vezes, não queremos carregar.

*EKP O tempo passa para a mulher que se afirma ao se colocar nas linhas que
não se apagam?*

MA - O Tempo passa indiferente às linhas escritas e publicadas ou não e às desenhadas
em nossa pele também. Tornar-se "imortal "através de uma obra de arte é uma
balela. Quem nos garante que a história e as gentes "imortalizaram" todos os
artistas de todas as épocas que mereciam isso? Quantos não foram ignorados,
quem dirá? Não vivemos em todas as épocas e em todos os lugares para saber...
Quantos dos que hoje são considerados "imortais" passarão à história?
O Tempo só não passa dentro do coração da gente, isto é, dentro da memória
afetiva de todos nós.

*EKP Quando você escreve você é só você, ou você é obrigada a vestir-se de
outros?*

MA - Ao contrário de no teatro, onde o ator tem que se tornar outro, embora ainda
sendo ele mesmo, o escritor não precisa deixar de ser ele embora tenha que
perceber e entender de outros para que possa criá-los. O esforço de se ignorar
não existe como no teatro. Na escrita, ao contrário de no teatro, o personagem
pertence ao autor,isto é, no teatro o ator "pertence" ao personagem.

*EKP Você é uma mulher realizada?*

MA - Não,Deus me livre! Realizada ,pra mim, é alguém que já realizou todos os seus
sonhos e eu não paro de sonhar, graças a Deus! Quem parou de sonhar, morreu.

*EKP Quando você escreve você quer se dar prazer ou pensa em dar prazer a
outrem?*

MA - Tenho uma poesia sobre isso. Chama-se exatamente "Masturbação" . Onde eu digo
claramente que não escrevo para agradar a ninguém, só a mim, por necessidade e
prazer. Por acaso gostaram do que escrevo e, vaidosa como sou, resolvi publicar.
Mas tenho muitas coisas escritas que não sei se os outros virão a conhecer.
Quando publiquei o meu primeiro livro, "Canto Nu dos Meus Recantos", quando ele
me chegou às mãos vindo da gráfica, fiquei muito orgulhosa dele mas não tive a
menor vontade de me afastar dos meus exemplares. Tive, mesmo, ciúme e pena de
perdê-los. Eram meus filhos e estavam lindos. Foi difícil. Tive que fazer minha
cabeça para o lançamento. Devo ser doida, quem sabe?

EKP Você não se amofina em se desnudar diante dos que a lêem?*

MA - Quem disse que me desnudo? Quem tem certeza sobre a verdade do que escrevo? E
mais, quem consegue se esconder quando escreve qualquer coisa? De novo, ao
contrário de no teatro,onde o ator se esconde sob o personagem, o escritor se
mostra no sub texto.

EKP O que foi que você escreveu que realmente a emocionou e que você sentiu
sua mão tomada por anjos?

MA - Muitas coisas. Já me aconteceu, por exemplo , de ter vontade de assinar outro
nome, parecido com o que chamam psicografia. Mas não do jeito que dizem que
acontece senão a assinatura teria saído. O que você escreveu e não acredita que
tenha sido você a escrever de tão belo que era o texto?* Uma boa dúzia de coisas.
De agradecer a Deus! E eu agradeço.

EKP Que escritora a emocionou e qual foi a frase, o dito ou o livro que
ficou gravado em sua mente, em sua sensibilidade?*

MA - Não dá pra escolher. Eu gosto muito da poesia de Florbela Espanca e da Gilka
Machado. Mas eu fui criada com Machado de Assis, Monteiro Lobato e Malba Tahan, então...
Livros que me impressionaram? "As desencantadas" de Pierre Lotti , "Perfume",
mas esqueci o autor , um livro chamado "Mutações " da Liv Ulman e um livro de
título "Nunca uma santa" (a vida de Carlota Joaquina romanceada) de um autor de
língua inglesa. Fora , é claro, de "O amante de Lady Chaterly"...
Dito?... Já que falamos tanto do Tempo... tem uma frase atribuída a Goethe que
diz:
"Não respeite os homens pelos seus cabelos brancos. Os canalhas também
envelhecem".
Não é verdade?



Alguns historiadores literários, como, por exemplo, Alexandrian, opinam que as mulheres não
conseguem apresentar uma obra instigante - exemplifica-se com Sade, em Juliette - porque o erotismo
feminino é menos cerebral do que o dos homens. Afirmam que as experiências sexuais das mulheres
podem até ser mais profundas do que as dos seus parceiros, mas elas não têm, em contrapartida,
a aptidão, para convertê-las em palavras.
Alexandrian poderia até ter alguma razão, mas aí encontramos um divisor de águas,
A cabeceira dos anjos, de Marcia Agrau: a autora apresenta-nos uma obra que o desmente e os seus
seguidores, pois seus poemas são “instigantes” e, mais ainda, têm um ponto de vista único, pois só
poderiam ter sido escritos por uma mulher, com seu olhar peculiar, imanente à alma feminina. Nenhum
homem tem condições de escrever acerca da alma erótica feminina, com a mestria de
Marcia Agrau - A cabeceira dos anjos, um livro emocionante, tocante, pois celebra a paixão sentimento,
e vai além, enfatizando, enaltecendo a sensação física.
O livro de Marcia Agrau é erótico, mas não é depravado, não é pornográfico, pois essa escritora não
aprendeu a arte do escrever mal, ela é uma criadora de textos de qualidade. O erotismo de Marcia é
expressão artística e cultural, e ela jamais esquece da raiz dessa palavra, Eros, o deus do amor.
Lendo os poemas dessa admirável poetisa, sentimos a coragem de sua poesia, não teme se expor,
não teme mostrar sua sensualidade, sua potente sexualidade, seu todo erótico, uma marca da mulher dos séculos XX e XXI.
Marcia Agrau, uma jovem senhora, comprova que sua poesia foi construída através de toda uma vida
vivida, mostra-nos todas as suas feridas, todas as suas medalhas, derrotas e vitórias, tornando-se um
paradigma, um modelo, um padrão do que deve ser a poesia erótica.
Marcia Agrau, uma poetisa madura, feita, pronta, e, com esse seu último livro, assume, sem dúvida,
um lugar de destaque no panteão da Literatura Brasileira, e, com galhardia, representa o que de
melhor a literatura erótica tem-nos a oferecer.
Assim, leitor(a) adquira este livro, vá para o recesso de seu lar e leia os poemas dessa maravilhosa poetisa,
que nos permitem penetrar nos mundos insondáveis do espírito feminino, do erotismo feminil".

Carlos Alberto dos Santos Abel
Doutor em Letras Vernáculas (Literatura Brasileira) pela UFRJ


 

Total
Marcia Agrau
 

Eu te amo
Tanto amo teu olhar doce e inocente
como amo teu olhar insolente.
Amo tuas mãos suaves no afago
como amo aborrecidas no gesto de enfado.
Eu amo tua boca que geme de prazer
e amo tua boca xingando semquerer.
Eu amo teu muxoxo e amo o teu sorriso.
Tuas loucuras, teu sonho,teu juizo...
Amo teus braços me enlaçando carinhosos
e amo teus braços bradando furiosos.
Amo teus ombros fortes,protetores
onde chorei tanto minhas dores
e onde a tensão vejo acumular.
Amo tuas pernas fortes e pesadas
que cabelos escuros fazem amorenadas.
Amo teus pés de suave textura,
a marca do calção,tua eterna brancura
e amo,sobretudo, abaixo da cintura
teu falo imponente, fingindo-se inocente
que penetrando em mim,me transporta às alturas.
Eu te amo inteiramente todo,da cabeça aos pés.
E amo cá por fora e por dentro quem és
com as muitas qualidades e os defeitos teus
Que os limites que traço
vão de onde começa o desejo do abraço
até onde termina a alma, sabe Deus...
 

Antonio Olinto escreve:
 

" Poesia se faz com palavras. Há muitos decênios escrevia Carlos Drumond
de Andrade que os poemas jazem nos dicionários e deles saem, presos a uma
visão intensa das coisas capaz de entrar nas palavras como fogo na carne.
" Sob o Signo da Lua" revela um assenhoramento vocabular digno de atenção.
Seus poemas fazem parte de um movimento geral da poesia brasileira neste final de
milênio, época de transe e de mudanças."
Rio de Janeiro, 20 de abril de 1995 Antônio Olinto


Marcia Agrau é o nome literário de Marcia Uébe, nascida Marcia Almeida Gomes Ribeiro de Almeida,
carioca, autora de " Canto Nu dos Meus Recantos " - 1991, "Sob o Signo da Lua" 1995, co-autora de
"Cinco Damas de Ouros" -1994 , participante de inúmeras antologias, recebedora de diversas premiações
como "Menção Honrosa " na categoria "Crônica" do Concurso Literário Stanislaw Ponte Preta de 1991,
da Secretaria Municipal de Cultura da cidade do Rio de Janeiro na Gestão do Secretário Carlos Eduardo
Novaes e Menção Honrosa no " Concurso Nacional de Poesias Affonso Romano de Sant´Anna" do
Sindicato dos Escritores do Estado do Rio de Janeiro com o livro " Sob o Signo da Lua" , terceiro lugar no
Concurso de Poesias da Freguesia de Amora(Portugal), entre outras.
É membro do Sindicato dos Escritores do Estado do Rio de Janeiro , da Sociedade dos Poetas Cariocas
( SPOC ), do Círculo de Poetas Lusófonos de Paris, da Associação "Actes de Présence" (Paris) e membro
 correspondente da Academia Petropolitana de Poesias Raul de Leoni.
Coordenou e apresentou pela SPOC o projeto " Versos Noturnos ", tendo também coordenado, apresentado
e participado de inúmeros recitais poéticos realizados por essa sociedade e criado, coordenado e apresentado
o projeto "Espalhando Poesia" com J.J.Germano . Também tem participado como jurada de vários concursos
de Poesia e realizou programas de Literatura na Rádio Imprensa FM a convite de Eunice Khoury.

Marcia Agrau tem no prelo seu primeiro livro de contos adultos, "A Faca e o Brinco" embora tenha ainda inédita
uma história policial infanto-juvenil ("O Sherlock do Rio Comprido") premiada pela União Brasileira de Escritores
com o prêmio Adolpho Aizen. Agora nos dá oportunidade de estar na internet para divulgar este trabalho tão
maravilhoso que vem sendo por ela realizado , mostrando a aqueles mais sensíveis sua arte com as palavras, em Poesia.