As entrevistas de Eunice Khoury:

Cristina Costa Pereira

EKP – Como é ser mulher e fazer literatura?

A escritora Cristina Costa PereiraR – A mulher, principalmente a que é mãe, como eu, já tem a vivência de gerar, lidou com o processo do parto e deu vida a outros seres. Conhece a dor e o prazer simultâneos, do ato de criar. É assim a criação de textos literários para mim: algo extremamente laborioso, racional e visceral a um só tempo – a chamada “loucura criativa”.

Escrever é uma função humilde e grandiosa. Mas a maior obra de arte é a nossa vida, afinal.  

EKP – O  tempo é seu amigo ou inimigo?

R – Fazendo-se um recorte temporal, temos presente, passado e futuro, em termos prosaicos. A física, há algumas décadas, vem questionando a linearidade desse recorte. A religiosidade, milenarmente, propôs uma outra visão de tempo. E eu, como espiritualista, creio na imisção temporal, na natureza circular da vida. O tempo é sabedoria revelando-nos os conceitos de nascimento, transformação, morte e renascimento. O tempo é meu mestre.  

EKP- Será que o tempo passa para a mulher que se afirma ao se colocar nas linhas que não se apagam?

R- Às vezes, ouço com felicidade uma referência a um livro que escrevi, por exemplo, em 1986 (minha estréia na literatura) e percebo como, depois do livro publicado, ele nos escapole e caminha por espaços diversos, através do tempos. E isso é incontrolável; nem que eu não queira permanecerei por aquilo que escrevi. Mas o fato é que somos seres em transformação, porque a evolução faz parte da nossa trajetória e se o universo, como comprova a física, está em expansão, nosso espírito e nossas idéias também deverão estar.  

EKP- Quando você escreve, você é só você, ou é obrigada a vestir-se de outros?

R- Os maias já diziam: “Eu sou outro de você.” Fernando Pessoa (ele mesmo) escreveu: “Todas as épocas me pertencem um momento/todas as almas um momento tiveram seu lugar em mim.” Não sou obrigada a vestir-me de outros, antes isso me dá um enorme prazer, porque, como todo ser humano, sou múltipla, complexa. Isto do ponto de vista do psiquismo. Num poema de minha autoria, “Caleidoscópio”, falo desses vários eus, dessas várias individualidades em mim. Neste sentido, numa abordagem da teoria da reencarnação. Em quatro dos meus ensaios (Povo cigano, Os ciganos continuam na estrada, Lendas e histórias ciganas e Povos de rua) tive que incorporar o outro; no caso, os ciganos, os meninos de rua, mendigos, prostitutas, artistas de rua etc. E no meu único livro de ficção, Ainda é tempo de sonhos (infanto-juvenil), com vários personagens, vesti-me de outros, senti com a alma de outros, intensamente.  

EKP- Você é uma mulher realizada?

R- Já plantei uma bananeira, uma romãzeira na casa de Santa Teresa, tenho dois filhos queridos: Pedro (31) e Lucas (25) e, até o momento, nove livros publicados. A constatação desses fatos da minha vida me agrada, mas, como creio na imortalidade da alma, ainda que a matéria pereça, tenho uma exata dimensão do que sou e o estado de realização plena será sempre uma meta a ser alcançada (e não, concretizada). 

EKP- Quando você escreve, pensa em se dar prazer ou em dar prazer a outrem?

R- Se escrevemos, se temos essa premência de nos comunicarmos pela arte literária, primeiro é por nós mesmas, para nos conectarmos com Deus, para investigarmos quem somos, garimparmos nossas potencialidades, tentarmos nos decifrar. Em seguida, é porque aquilo que descobrimos de belo, de interessante, de proveitoso, de precioso mesmo, tem que ser dividido com os leitores. Essa travessia para o outro é a satisfação completa.  

EKP- Você não se amofina em se desnudar diante dos que a lêem?

R- Escrevi, até os dias de hoje, cinco ensaios, um livro infanto-juvenil e três livros de poesia. Minha linguagem sou eu mesma, ainda que me camufle sob recursos lingüísticos, literários, teorias etc. A própria escolha de escrever sobre este ou aquele assunto já é um desnudar-se. Porém, um dos “perigos da poesia”, se assim posso dizer, é que ela nos expõe totalmente. O fato é que sempre fiz palestras e conferências sobre meus livros, com a maior desenvoltura e, no entanto, a primeira vez em que falei em público meus poemas, em 1998, os lábios colaram, fui tomada por um certo tremor e alguma ansiedade, porque, em minha opinião, a poesia expõe mais visceralmente.  

EKP- O que você escreveu que realmente a emocionou e você já sentiu sua mão tomada por anjos?

R- Em cada livro que escrevo, sou movida a paixão, fico literalmente tomada pelo tema. O processo é sempre esse. Porém, às vezes, vinha-me a idéia e o texto saía (seja sob a forma de prosa ou poesia) com exaustivo trabalho, necessitando de reparos,  rasuras, reelaboração, pesquisa. Noutras vezes, o texto saía num fluxo inteiro: a palavra saltava sem merecer reparos. Parecia um texto a quatro mãos. Eu considero certos fatores que agem sobre mim e meu estado geral. Nesse sentido, tenho um sentimento de reverência por uma natureza de ordem superior que as religiões chamam de Deus e o físico David Bohm chama de ordem super-implícita. Para os meus escritos, no meu processo de criação, gosto de colher referências na origem, religada com o Criador. Procuro fazer um trabalho que me coloque na faixa vibratória de produção para Deus. Esse tema (a inspiração, esse mar oculto) me é tão caro, que em 1998, publiquei meu sexto livro, A inspiração espiritual na criação artística, ora em 3ª edição, que ficou entre os finalistas do Prêmio Jabuti Categoria Religião 2000.

 EKP- Que escritora mais a emocionou?

R- No Brasil, somos privilegiados por termos vários tipos de língua portuguesa: a de Guimarães Rosa, a de Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana, Mário de Andrade, Monteiro Lobato, Machado de Assis, Manuel Bandeira, Cora Coralina etc. Todos estes me emocionam, afora os estrangeiros: García Lorca, Teresa de Ávila, Fernando Pessoa, Dostoievsky, Walt Whitman, Júlio Verne, Victor Hugo, Gabriel García Márquez, Baudelaire, Florbela Espanca etc.

 EKP- Uma frase, um dito ou um livro que tenha ficado gravado  na sua mente, na sua sensibilidade.

R- Tarefa impossível escolher um. Aí vão alguns: Cem anos de solidão (de Gabriel García Márquez). Logo no início do livro, o narrador destaca que num primeiro momento nada tem nome, está tudo em estado seminal: “ O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo.”

 “ Entro numa livraria como quem passeia pelo mundo do espírito.” (“Um livrinho e muitas saudades” in Escolha o seu sonho - Cecília Meireles)  
“Os dogmas assustam como trovões e que medo de errar a seqüência dos ritos!
Em compensação, Deus é mais simples do que as religiões.”
(“Dogma e ritual” – Mário Quintana)  
“Tudo é leque: Irmão, abre os braços, Deus é o ponto” (“Raios” – Federico García Lorca)

 PRIMATA

Que é que brinca conosco / atuando no tempo de sonho / no reino intemporal de onde

– parece – provêm todas as coisas?

 

Por que brinca conosco / desse campo das estrelas, / mundo misterioso de dimensões incorpóreas / e sobrenaturais oceanos?

Queria dizer àquele ente jogador / que já não suportamos mais,

títeres, submetermo-nos às suas manipulações.

Mãos enormes que adentram nossos cômodos / e remexem em nossas histórias particulares

conferindo-lhes uma outra ordenação.

Se agora estiver me ouvindo / pediria que encerrasse de vez /

essa incognoscível ludicidade

e nos libertasse deste fio invisível / que nos prende à sua imaterial engrenagem.

 Cristina da Costa Pereira

Breve Currículo (em maio de 2008) 

Cristina da Costa Pereira é carioca, tem dois filhos, Pedro (31) e Lucas (25). Graduou-se  em letras pela UFRJ e, por dez anos, lecionou língua portuguesa e literatura brasileira no 2ºgrau das redes particular e pública do Rio de Janeiro. Como escritora tem os seguintes livros publicados:

Ensaios – Povo cigano (1986 e 1988); Lendas e histórias ciganas, Imago, (1990 e 1992); A inspiração espiritual na criação artística, 1ª Ed. Lachatre (1998), 2ª e 3ª Ed. Celd (2001 e 2007) – finalista do Prêmio Jabuti, categoria Religião 2000; e Povos de rua (2003).

Poesia – Revisitando o bairro de Santa Teresa...e outros caminhos (1998 e 2000); Todos os sentidos (1999); e Mescolanza (2001).

Literatura infanto-juvenil – Ainda é tempo de sonhos, Imago (1992). 

Foi a primeira escritora da América Latina a publicar um livro sobre a etnia cigana o qual desencadeou o movimento cultural cigano no país, por meio da fundação do Centro de Estudos Ciganos que durou de 1987 até 1992. Teve artigos publicados sobre ciganos na Revista de Cultura da Vozes, Lacio Drom (Roma) e Études Tsiganes (Paris). 

Como produtora cultural, organizou eventos na Casa de Rui Barbosa, CCBB, MIS, Espaço Cultural Sérgio Porto, Centro Cultural San Martin (Buenos Aires), eventos relacionados à cultura cigana. Coordenou no final da década de 1990 inúmeros eventos literários na Biblioteca de Santa Teresa e no Centro Cultural Laurinda Santos Lobo. Foi criadora e coordenadora dos seguintes eventos culturais na década de 2000: Ciranda Literária, no Centro Cultural Laurinda Santos Lobo, Conversas Casadas, nas Casas Casadas (Riofilme) e Poesia nossa de cada dia, no Centro Cultural Casa Rosa. 

Organizou as antologias Santa poesia (MM Rio) e Sob o signo da poesia(Heresis) e vem participando, como poeta, dos principais eventos cariocas.

 Em 2006, recebeu o Prêmio Mérito Cultural da União Brasileira de Escritores – UBE -RJ na ABL, pelo conjunto de atividades desenvolvidas em prol da arte e da cultura.

 e-mail da autora: Cristina_escritora@estadao.com.br