A
antiga igreja de São Peter am Perlach (1067), no coração da cidade de
Augsburg, Alemanha, abriga um precioso tesouro espiritual: o quadro "Maria
desatadora de nós". Obra barroca, pintada, provavelmente, em meados do
ano de 1700. Infelizmente, seu autor é desconhecido. O artista concentrou, na
tela, um grande número de pensamentos com o objetivo de doação de fé e
encorajamento. Quem observa o quadro pela primeira vez, fica surpreendido pela
representação incomum. Não se trata de mais uma interpretação pictórica de
Nossa Senhora; pelo menos não é a consueta Mãe de Deus com o menino.
Observamos, então, esta Nossa Senhora da Imaculada Conceição: Ela se encontra
entre o Céu e a Terra, simbolizando o novo início, o grande sinal da
Salvação. Da plenitude da luz de Deus desce o Espírito Santo, sustendo-se no
ar a irradiar em luz: "Tu és cheia de graça". Sua cabeça, coroada,
portanto, com 12 estrelas, símbolos dos dons de Deus. Trata-se mesmo do
Espírito da obediência que ama e ensina; é Ela, a clamar: "Abbá, ó
Pai! Seja feita a Tua vontade, eu sou a Virgem do Senhor". Seu manto, em
movimento, é agitado por Aquele que dá a vida: eis a Esposa do Espírito
Santo! Aquela que ficou imune ao pecado original se resguarda de culpa pessoal.
Segura, pousa os pés sobre a cabeça da "Antiga Serpente", que se
enrola em torno da Lua, sinal da volubilidade. Vence o espírito da
desobediência, da indignação e o das trevas que, com raiva e ódio, explode
num grito. Observamos Maria Desatadora de Nós! Esta comparação é extraída
da obra de Santo Irineu de Lion (falecido em 202), bispo e mártir: "Contra
as heresias" (III, 22, 4). O quadro não chega a ter trezentos anos, mas
este pensamento, esta idéia estimulou a cristandade a refletir, há mais de
2000 anos, sobre a participação de nossa amada Mãe, à obra de redenção do
Seu Filho. Atrás desta imagem cheia de luz, encontra-se a dura realidade da
crucificação. O Concílio Vaticano II, na sua "Constituição da
Igreja" (nº. 56), revalorizou a referida tela: "O Pai de cada
misericórdia queria que, antes da encarnação de Seu Filho, a Mãe
predestinada pronunciasse o "sim", o Fiat (seja feita a Sua vontade, a
vontade de Deus), para que, deste modo, uma mulher, Eva, tendo contribuído para
a morte, assim uma mulher, a Virgem Maria, contribuiu para a Vida... O nó da
desobediência de Eva é desatado em virtude da obediência de Maria. O que Eva
ligou mediante a incredulidade (ligado, estreitado, isto é, o nó da culpa),
Maria desatou em virtude da Fé. Pelo nosso agir cheio de erros - pecados aos
Seus olhos - Deus quis, como expiação, como indenização, a obediência do
Seu Filho e, junto à dEle, a obediência da Sua e Nossa Mãe e a obediência de
todos os Seus filhos e filhas. Nosso Senhor celebrou, na plenitude dos tempos,
como desatadora de nós (de dificuldades) a Missa solene aos pés da cruz.
Naquele caso, Ela também estava próxima como diácona da salvação, como
desatadora dos nós, dos pecados e do mal. Para nós todos, trata-se do mesmo
serviço que se completou sobretudo no martírio da cruz e que nós repetimos
toda vez que voltamos a viver o sacrifício da Eucaristia, na graça da nossa
vida na Fé, na Esperança e no Amor. Podemos ver Maria, igualmente, como
Mediadora, Medianeira da Graça, o que Ela, uma vez recebeu em forma de bens,
ora os distribui. Ela é a Salvação dos doentes, o amparo dos pecadores,
Consoladora dos aflitos e dos oprimidos, Socorro dos cristãos, Mãe do bom
conselho, desatadora de todos os nós e de todas as dificuldades. Um dos dois
anjos, o que se apresenta mais elevado, está a Lhe oferecer uma fita com
grandes e pequenos nós, constituída de nós únicos ou de entrelaçamentos de
muitos nós. Aqui é representado o pecado original com todas suas
conseqüências, enodando a nossa vida. Nós na vida pessoal, na vida
profissional, em cada vida da sociedade, assim como naquela dos povos, nós
entrelaçados pela nossa geral e humana caducidade e insuficiência, além dos
fios em voltas resistentes, geradas por nossas culpas, fruto da nossa
desobediência, sempre a causar novos nós. A Graça não pode escorrer ao longo
da fita - fio da nossa vida - por causa da sua resistência; mas a Magda
(servidora) do Senhor nos incita à obediência, em virtude de Suas mãos
benevolentes, a desatar um nó após o outro. E, assim, a fita, sobre a qual se
reflete a luz da misericórdia e da santificação, é passada para o outro
anjo, o que está ajoelhado, que a mostra - olhar eloqüente - a quem rezou e
foi atendido: "Olhe o que você conseguiu novamente, em virtude da
intercessão da Santa Mãe!" Por isso os bons anjos nos devem levar até
Ela, que é a Rainha deles e nossa. O desatamento de um nó particular é
mostrado na cena exposta no plano inferior da obra: na semi-obscuridade, um anjo
e um homem, seguidos por um cão, estão a percorrer uma estrada, rumo a uma
igreja longínqua. A história descrita pelo
artista
é clara: o Arcanjo Rafael conduz o jovem Tobias à sua futura esposa, Sara
(Tobias 6, 13-19). O originário tema da noiva torna-se, para muitos fiéis, o
símbolo do casamento. Pela intercessão de Maria os futuros esposos se
encontrarão, ou os esposos atuais devem encontrar-se, na paz matrimonial.
Quantos nós se devem desatar, para que sejam doadas a paz e a harmonia aos
corações! Podemos coligar nosso quadro com o ciclo litúrgico da Igreja: a
solene festa da Imaculada Conceição da Virgem Maria, Mãe de Deus, o início
bendito da Sua vida; o Aniversário das sete dores de Maria, em memória da Sua
sempre nova dedicação, pela Fé, até aos pés da Cruz do Seu amado Filho; a
solene Festa da Assunção de Maria aos Céus, e a Sua coroação como nossa
mediadora. Cada uma destas festividades nos mostra, a Mãe Santíssima e Sua
imagem, em luzes sempre novas. Até a tríplice coroa de rosas aparece, neste
quadro, com profundo significado. Muitos habitantes de Augsburg fazem-Lhe
silenciosa visitação, vão até Ela, em peregrinação, para saudá-La e
pedir-Lhe a Sua intercessão. O que um guia muçulmano expôs para um grupo de
turistas estrangeiros, no verão de 1965, na "Casa da morte da Mãe de
Deus", em Éfeso, Turquia, vale igualmente aqui: "Se você está
preocupado, acenda uma vela diante de Maria. Dizem que ajuda". Em virtude
da benção de Deus e da fé dos crentes, Sua imagem tornou-se a imagem de
Graça. Se nós já A chamamos de nossa querida Madona de Scheppach ou de Kobel,
podemos recorrer a Ela suplicando, igualmente: "Maria, desatadora de nós
de Augsburg, rezai por nós!".