Vivendo (e conhecendo) o Salento

Claudia Arantes Lopes - Agosto 2004

Clique para aumentarFalar do fascinante universo salentino não é tarefa das mais fáceis. A primeira impressão que se tem, ao chegar nessa terra, é que o tempo passa lentamente. Logo, porém, percebe-se que, na verdade, o Salento é uma terra onde a criatividade dos habitantes ferve 365 dias por ano, aquecida por um sol que brilha mesmo no inverno. O Salento fica na extrema ponta peninsular da Puglia – no final do “taco” da bota – e engloba quase toda a província de Lecce. Devido à posição geográfica, em suas terras encontram-se vestígios de diversas e antigas civilizações – messápicos, gregos, romanos e outros, cujas presença e influência perpetuaram-se através dos séculos. Basta um simples passeio pelas ruas e vielas das cidades salentinas para perceber os vestígios desse passado distante, sobretudo através da arquitetura, ritos religiosos, festas, danças, língua e gastronomia. A cozinha tradicional salentina, assim como a pugliese, valoriza os recursos alimentares presentes no próprio território. O grão e o azeite extravirgem são a base da alimentação, sem falar na grande variedade de verduras e hortaliças, da carne e do peixe, que juntos formam a tão conhecida “dieta mediterrânea”. Apesar da riqueza de sabor e criatividade, durante muito tempo a cozinha salentina foi considerada pobre e humilde. Um alimento muito comum entre os camponeses – hoje presente em todas as mesas – é a chamada friseddhra (it. la frisa), uma rosca de pão abiscoitado, cortada "Le ricchie e i minchialedhri" do Salento. Clique aqui para aumentarao meio e imersa em água por alguns minutos. É condimentada com azeite extravirgem, sal e tomates. Diz a lenda que o mitológico Enéas, em sua fuga de Tróia, foi quem levou le friseddhre para o Salento. Também os farináceos formam a base de todas as massas – o tradicional “primo piatto”. São preparados pelas mulheres, que abusam da criatividade para proporcionar aos maridos a sensação de comerem, a cada dia, pratos diferentes. Alternam-se espaguete com miolo de pão (dial. spachetti cu’ la muddica te pane), macarrão com molho de tomate e ricota (dial. maccarruni cu’ lu sucu te pummitoru e casu ricotta), espaguete com mexilhão (dial. spachetti cu le cozze), orecchiette com rúcula (dial. le ricchie cu’ la rucula) – tipo de massa curta em forma de pequenas orelhas, conhecidas internacionalmente – e muitos outros. Assim é o Salento: rico, farto e fascinante. Convido todos os leitores a conhecê-lo melhor.