Falar do fascinante universo salentino não é tarefa das mais fáceis. A
primeira impressão que se tem, ao chegar nessa terra, é que o tempo passa
lentamente. Logo, porém, percebe-se que, na verdade, o Salento é uma terra onde
a criatividade dos habitantes ferve 365 dias por ano, aquecida por um sol que
brilha mesmo no inverno. O Salento fica na extrema ponta peninsular da Puglia –
no final do “taco” da bota – e engloba quase toda a província de Lecce. Devido à
posição geográfica, em suas terras encontram-se vestígios de
diversas e antigas
civilizações – messápicos, gregos, romanos e outros, cujas presença e influência
perpetuaram-se através dos séculos. Basta um simples passeio pelas ruas e vielas
das cidades salentinas para perceber os vestígios desse passado distante,
sobretudo através da arquitetura, ritos religiosos, festas, danças, língua e
gastronomia. A cozinha tradicional salentina, assim como a pugliese, valoriza os
recursos alimentares presentes no próprio território. O grão e o azeite
extravirgem são a base da alimentação, sem falar na grande variedade de verduras
e hortaliças, da carne e do peixe, que juntos formam a tão conhecida “dieta
mediterrânea”. Apesar da riqueza de sabor e criatividade, durante muito tempo a
cozinha salentina foi considerada pobre e humilde. Um alimento muito comum entre
os camponeses – hoje presente em todas as mesas – é a chamada friseddhra (it. la
frisa), uma rosca de pão abiscoitado, cortada
ao meio e imersa em água por
alguns minutos. É condimentada com azeite extravirgem, sal e tomates. Diz a
lenda que o mitológico Enéas, em sua fuga de Tróia, foi quem levou le friseddhre
para o Salento. Também os farináceos formam a base de todas as massas – o
tradicional “primo piatto”. São preparados pelas mulheres, que abusam da
criatividade para proporcionar aos maridos a sensação de comerem, a cada dia,
pratos diferentes. Alternam-se espaguete com miolo de pão (dial. spachetti cu’
la muddica te pane), macarrão com molho de tomate e ricota (dial. maccarruni cu’
lu sucu te pummitoru e casu ricotta), espaguete com mexilhão (dial. spachetti cu
le cozze), orecchiette com rúcula (dial. le ricchie cu’ la rucula) – tipo de
massa curta em forma de pequenas orelhas, conhecidas internacionalmente – e
muitos outros. Assim é o Salento: rico, farto e fascinante. Convido todos os
leitores a conhecê-lo melhor.