A Arca de Noé de hoje

A Universidade Francisco Marroquin da Guatemala acaba de publicar uma bem humorada crítica ao intervencionismo estatal. Como teria sido a estória de Noé se ele fosse um latino americano vivendo nos dias de hoje ? Naquele tempo, o Senhor falou com Noé e anunciou o Apocalipse.

-- "Dentro de 6 meses farei chover quarenta dias e quarenta noites, até que toda a Terra esteja inundada e toda gente má morra afogada. Mas quero salvar os homens de bem e um casal de animais de cada espécie. Ordeno que você construa uma arca para salvar os eleitos. E, entre raios e trovões, deu as instruções finais. Noé tremeu de medo. O Senhor continuou trovejando e ameaçando : "é melhor que a Arca fique pronta no prazo ou todos morrerão".

Passados os 6 meses o céu ficou nublado e, de repente, começou a tempestade. O Senhor apareceu entre as nuvens negras e viu Noé ajoelhado e chorando no pátio de sua casa. -- "Uai, onde está a Arca que lhe pedí?"

-- "Perdoa-me Senhor -- suplicou-lhe Noé completamente arrasado -- fiz o máximo mas encontrei muitos problemas. Tudo começou ao tentar conseguir a licença de obras. Exigiram-me o alvará de funcionamento do meu estaleiro e me cobraram impostos e taxas exorbitantes. Em seguida, queriam que eu apresentasse todos os projetos envolvendo a segurança contra incêndios na Arca. Isso seria muito caro, mas eu consegui burlar subornando um funcionário. Depois as dificuldades foram com os vizinhos: eles alegavam que meu estaleiro estava numa zona residencial. Nisso perdi vários meses tentando convencer a Prefeitura de que minha atividade não prejudicava o direito alheio.

Além disso, a Prefeitura queria que eu apresentasse uma procuração que me credenciasse como representante do Senhor. Pediram também que eu apresentasse o talão de Notas Fiscais, CGC, CPF, autorização do Juizado de Menores para embarcar meus filhos menores e o bilhete de passagem dos animais devidamente carimbado pelo IBAMA.

Com o Ministério da Fazenda foi outra encrenca. Não quiseram me registrar como pequena empresa alegando que a Arca estava muito grande. Ainda tentei me registrar como entidade sem fins lucrativos, uma espécie de ONG temporária. Nada consegui. Quiseram ainda que eu apresentasse a guia do Imposto de Renda sobre o lucro presumido e, em seguida as guias quitadas do IVI (imposto sobre vendas incertas). Pior, logo depois recebi uma intimação do Ministro da Fazenda me ameaçando de prisão porque dei início as trabalhos sem avisá-lo mediante requerimento devidamente protocolado na repartição central que só funciona de 9 às 11h.

Mas o principal problema foi conseguir a madeira. O IBAMA não entendeu que se tratava de uma emergência e me chamaram de louco, me puseram uma camisa de força e me encaminharam a um sanatório onde levei muitos choques elétricos.

Para dar de comer aos bichos, tive que apresentar a planta do refeitório e submetê-la ao Dep. de Higiene Sanitária da Prefeitura. Mais propina. A Comissão Nacional de Emergências também quis um mapa da zona a ser inundada e um plano geral de preservação ambiental e da vida animal. Mandei um globo terrestre, conforme instrução de Deus, e quase fui preso novamente.

O ministério dos Transportes exigiu o roteiro da Arca, o Departamento de Trânsito pediu minha habilitação de "timoneiro de Arca", o Ministério de Energia queria informações sobre o tipo de combustível da Arca, e não adiantou eu dizer que a Arca não tinha motor. Finalmente a Polícia Marítima, o MP e a Marinha quiseram impedir a construção alegando que a Arca serviria para transportar drogas pelos rios da Amazônia.

Depois de um longo silêncio o céu desanuviou-se. Noé então perguntou:  "O Senhor então acolheu minhas explicações e não destruirá a vida na Terra?" -- Não acolhi não -- respondeu o Senhor --, é que o governo já está se encarregando da destruição.