A caixa preta da demografia 

Gilberto Ramos - economista.

Nos dois debates entre candidatos (presidente e governador) nenhum deles abordou a questão demográfica e tampouco os jornalistas fizeram perguntas sobre o tema. Essa questão é mesmo um tabu no Brasil. Tínhamos 70 milhões de almas em 1965 e agora, apenas 37 anos depois, chegamos a 174 milhões. Que barbaridade ! Porém, alguns analistas consideram que o fantasma da explosão demográfica está definitivamente afastado, vide a redução da taxa de natalidade. Para quem não sabe, esta taxa é dada tomando-se os nascimentos, subtraindo-se as mortes e dividindo o resultado pelo total da população. Como a migração campo-cidade, aumentou a expectativa de vida ao nascer, basicamente pelo acesso mais fácil à saúde pública, a redução da natalidade é ainda mais festejável. Entretanto, é preciso advertir que estamos raciocinando com taxas médias, e desconsiderando a taxa de fertilidade, ou seja, o nº de filhos por mulher em idade fértil.

Esse preâmbulo é para dizer que não devemos nos iludir com taxas médias. A redução da natalidade decorre da diminuição, mais do que proporcional, da taxa de fertilidade entre as mulheres que poderiam prover bem estar às suas proles. Infelizmente, nas camadas mais pobres a natalidade é ainda muito alta. GERAR FILHOS E CONDENÁ-LOS PREVIAMENTE À INDIGÊNCIA, É A FORMA PRIMEIRA DE VIOLÊNCIA. Uma rápida manipulação dos índices - é bem verdade que nem sempre confiáveis - mostra que estamos com 6,2 milhões de mulheres grávidas. Haja maternidades e creches públicas para todas. Nenhum país, mesmo o G-7, fica incólume diante desta irresponsabilidade genética. Mais doloroso é sabermos que 30% destas gestações são acidentes sexuais e 120 mil abortos serão realizados sabe Deus em que condições e com que conseqüências.

Nos últimos 30 anos temos aumentado bastante a oferta de empregos, porém menos do seria desejável em face da natalidade. Portanto, não culpem só o governo pelo desemprego e concentração de renda, GOVERNO NÃO FAZ FILHO. Esta irresponsabilidade da qual somos todos causa e efeito, provocou a insuficiência do governo para suprir demandas sociais. À reboque estão os políticos clientelistas que acenam com a falácia do paternalismo estatal e, mais recentemente, a proliferação de religiões (ou seitas) que preferem o dízimo à penitência.

O planejamento familiar - prefiro a expressão paternidade responsável - é previsão constitucional (art. 226) e deveria ser uma prioridade política. O estadista é um homem que, a um só tempo, reúne bom senso econômico e sensibilidade social. Por favor, debatam este tema e não aceitem patrulhamento ideológico ou religioso: é tão cristão permitir que as famílias tenham tantos filhos quanto queiram, como também é cristão limitar a prole, claro, sem métodos invasivos. É direito do povo e dever do estado fornecer as informações e os meios para que cada família se dimensione. E o melhor anticoncepcional, sem contra indicação nem efeitos colaterais, é a educação. Povos educados não praticam esta fornicação desenfreada que aconteceu no Brasil.