A cumplicidade dos iguais

de José Neumanne

Afinal, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou a própria candidatura à reeleição. É uma daquelas farsas em que a política brasileira é muito pródiga: Lula é um eterno candidato. Desde que enfrentou Fernando Collor de Mello, em 1989, ele não faz outra coisa a não ser pedir voto. Foi derrotado por Collor, perdeu duas vezes para Fernando Henrique e na quarta tentativa venceu Serra. O ex-ministro Delfim Netto dizia que o País precisava passar pela experiência de um governo do PT para não ficar na eterna ilusão. Mas ele mesmo terminaria, quem diria, aderindo ao governo petista, que pretende se perenizar no poder. Qualquer um que ganhe eleição no Brasil pretende fazer isso, mas o PT tem um plano coerente, bem feito e competente para ficar. O comissário José Dirceu tratou de aparelhar o Estado distribuindo boquinhas na burocracia para a companheirada. Para garantir a tal da governabilidade, comprou a adesão dos parlamentares eleitos para representar a sociedade. A tecnologia era simples. Apesar de apelidada de "mensalão" pelo delator Roberto Jefferson, um ex-amigo, ela não tem nada que ver com periodicidade. Tem a ver, sim, com impunidade. A prática da compra do Congresso, permitida pela garantia de impunidade com que os nobres representantes do povo se presenteiam generosamente, terminou por assegurar também a impossibilidade de se abrir um processo de impeachment contra o presidente da República, mesmo depois que seu marqueteiro favorito contou ter recebido dinheirinho petista em suas contas no exterior. Diziam que se temia a mobilização dos movimentos sociais. Que balela! O que garantiu mesmo a permanência no poder, apesar de todas as evidências, foi a cumplicidade dos iguais. Agora, a nau lulista zarpa para o porto seguro do sucesso na reeleição. E o resto é bazófia!

Rouba, mas quem não faz?

Em 15 de julho de 2005, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu em Paris entrevista a uma free lancer - que a Rede Globo, com larga tradição de bons préstimos ao reizinho de plantão, levou ao ar no Fantástico - vendendo a falácia de que não havia "valerioduto", mas caixa 2, "prática comum de todos os partidos nas eleições brasileiras". Como a Constituição não garante ao chefe do governo o condão de tornar o crime engano nem o vício hábito, restou a impressão de que os petistas tinham modificado um pouco o lema de Adhemar de Barros, que passou a ser "rouba, mas quem não faz?" Lula venceu a eleição de 2002 por ter persuadido o eleitor de que era diferente dos adversários. E é favorito em 2006 por mostrar que os adversários são iguais a ele.

O macaquinho falante

A tática para superar o desgaste causado pelo escândalo de corrupção foi reforçado pelo pedido público de perdão de Sua Excelência Excelentíssima. Um mês depois de adotada a tática da troca do delito grave pela falha mais leve (embora o próprio ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, que é criminalista, ter definido caixa 2 simplesmente como crime), Lula pediu desculpas, mas não disse por quê. E se queixou de traição, sem denunciar o traidor, de companheiros que patrocinaram práticas ilícitas, das quais evidentemente ele não tomou conhecimento. Como se sabe, o chefe do governo só contraria o macaquinho da piada em uma coisa: ele não ouve nem vê, mas fala pra caramba, como diria o artilheiro de todas as Copas, Ronaldo Nazário, o Fenômeno.

A lógica do proletário cínico

Após haver passado três anos e meio governando de cima do palanque, o postulante à reeleição assumiu, enfim, o posto de candidato de si mesmo, proclamando-se vítima preferencial das vozes do atraso das elites cruéis que o perseguem desde sempre, por ser um pobre trabalhador braçal. A tática do "somos, mas quem não é?", aprendida naquele velho programa de humor da televisão, reforçada pelo pedido de desculpas e pela autocomiseração, ganhou um novo tom arrogante na base de "esse negócio de ética é coisa para burguês." Parece o oposto da tática de um ano atrás, mas é igualzinha, pois se baseia na mesma lógica de que "proletário bom é proletário cínico", a única defesa possível contra a exploração do trabalho braçal pela especulação do capital.

Tal candidato, tal eleitor!

Essa lógica não se consagra apenas na bajulação cretina da intelligentsia bem pensante, resumida de forma precisa pela conclusão do psicólogo Gabriel Cohn de que as acusações contra o candidato à reeleição agridem as instituições. Nem no pretexto da prioridade social encontrado por intelectuais finos, como Alain Touraine, e compositores populares, como Chico Buarque, para justificar o voto na permanência do status quo tapando o nariz. Mas também na identificação do eleitor comum, principalmente o mais pobre, com "nosso guia". Inclusive no aspecto moral. Prova-o a informação de Sílvio de Abreu, autor de Belíssima, de que o telespectador médio passou a torcer pelo vilão e desprezar o bonzinho.

Uma lágrima furtiva

Deixou de circular a revista mensal Primeira leitura, criada pelo economista José Roberto Mendonça de Barros, do grupo tucano ligado ao ex-prefeito de São Paulo José Serra, e que vinha sendo tocada pelos jornalistas Reinaldo Azevedo e Rui Nogueira. Com o enterro da revista e do site desaparece um veículo inteligente e provocador, que contribuía para o debate das idéias neste País cada vez mais submetido à tática stalinista de dissolver a realidade no açúcar da mistificação e no ácido da difamação. Para quem aprecia a comunicação plural e tolerante, as entrevistas, ensaios e resenhas do periódico vão fazer muita falta. Quem prefere o discurso único do Grande Irmão recebe a notícia com alívio.

Do espelho ao galinheiro

A campanha tucana tem dado grande ajuda à reeleição do presidente petista. Na convenção do PSDB em São Paulo, no último fim de semana, o ex-presidente Fernando Henrique xingou o adversário até não mais poder. Com a bravata, ele só conseguiu transformar o favorito em mártir, além de ter facilitado a estratégia oficial de contrapor Lula não a Geraldo Alckmin, mas ao ex-presidente. Esse palpite infeliz mostra como pode ser perigosa a mistura de vaidade com burrice. Principalmente quando vêm associadas à vaidade excessiva. Alguém precisa contar ao príncipe dos sociólogos que, ao contrário do que lhe segreda o espelho do toucador, para o brasileiro médio ele está mais sujo que pau de galinheiro.

Muito prazer, hein?

Os ingênuos e otimistas da oposição contavam com o programa do PSDB no horário gratuito da TV para tornar possível, enfim, a arrancada sempre adiada da dupla "picolé com chuchu" rumo à vitória. Mas os marqueteiros da fina flor do tucanato não colaboram. Entre outras pérolas, apelaram para o bordão "muito prazer", chamando a atenção do eleitorado para um dos principais defeitos do ex-governador paulista com pretensões a subir a rampa do Palácio do Planalto: o baixo índice de conhecimento de seu nome e sua obra pelo eleitor mais simples e pobre de fora do território paulista. Com esse tipo de apelo, a campanha pela reeleição do presidente se assemelha cada vez mais a tomar biscoito de criança.