A esquerda, o poder e a sátira

de Edoardo Pacelli

Esta vinheta, publicada em novembro no jornal italiano Corriere della Sera é do mais famoso caricaturista italiano, Giorgio Forattini. Seus desenhos aparecem, há pelo menos 25 anos, nos maiores jornais italianos. Ou melhor, apareciam...

Quando o alvo do artista eram os personagens políticos no poder, os democratas cristãos e os socialistas, a nomenklatura comunista na Itália (termo usado para representar a ordem gerárquica dos homens que formavam a estrutura política do partido comunista na antiga União Soviética) aplaudia a ousadia dos vários artistas e defendia democraticamente sua liberdade de expressão. Anos depois, os comunistas chegaram ao poder com o ribaltone — que aconteceu quando a Lega Nord, que fazia parte da coalisão do governo passou para a oposição — e o que era justo, sagrado e, sobretudo, democrático hoje não vale mais.

A sátira política sempre foi um trunfo da esquerda marxista. Por cinqüenta anos na oposição, todas as sátiras contra o governo eram por ela aplaudidas.Mas desde quando as críticas são dirigidas a ela, quem não está de acordo logo é chamado de fascista e com este apelido se torna imediatamente um fora da lei, um pária, um leproso. Duas são para eles as palavras de ordem: democrático e fascista. Tudo o que "eles" fazem é democrático; quem tem opinião contrária e não se deixa convencer, é fascista. Assistimos o nascimento das Repúblicas Democráticas da Hungria, da Tchecoslováquia, da Polônia, da Romênia, da Alemanha Oriental, da China, da Coréa do Norte e assim por diante. Dessas democracias, por sorte, sobraram poucas. Todas elas eram, e algumas ainda são, ditaduras, mas todas se auto-nomeiam democráticas.

No ano passado, foi entregue ao governo italiano um dossiê com as memórias de um ex-funcionários da KGB, o temido serviço de inteligência soviético. Os comunistas minimizam o dossier Mitrhokin e tentam comparar as ajudas (comprovadas) da KGB para organizar um centro subversivo com rede de rádio para alertar as "células"comunistas em prol de uma potência inimiga, com a eventual ajuda de um aliado.

O dossiê revela que um grande número de políticos, jornalistas, militares, industriais e cidadãos comuns italianos se colocaram a serviço do então inimigo da Itália, a União Soviética do antigo regime comunista. Se descobriu, por exemplo, que um dos políticos que garante a maioria do governo D’Alema, o senador Cossutta, era um dos mais ativos postulante de ajudas econômicas para o partido comunista italiano. Nesta época, qualquer financiamento aos partidos, a não ser o público fornecido pelo estado, era considerado fora da lei. Por isso, muitos políticos italianos foram para cadeia pelos magistrados da Operação Mãos Limpas e alguns se suicidaram. Depois ter minimizado e ridicularizado o assim dito dossier Mitrhokin, o governo teve que entregar ao Parlamento a lista dos nomes que aparecem no dossiê. O Presidente D’Alema não teve pressa para encaminhar dita lista.

Neste meio-tempo, Giorgio Forattini publicou, no jornal Corriere della Sera, o desenho que ora publicamos. Nela se lê: — Então, esta lista vai chegar ou não?" — e a resposta é — Um momento! O bianchetto (uma espécie de tinta branca corretiva) ainda não secou!".

A reação de D’Alema foi imediata e muito democrática. Denunciou Forattini e pediu o equivalente a três milhões de reais em liras como indenização. O que é pior, o jornal la Repubblica não tomou posição e não defendeu seu ilustre colaborador. Ao ser contatado por D’Alema que exigia uma declaração oficial de desculpa, para retirar o pedido de indenização, Forattini se recusou dizendo que não tem nada para se desculpar e pediu demissão do jornal depois de uma colaboração de mais de vinte anos.