A pouca vergonha dos senadores sem votos

José Nêumanne *

Foto da Agência Senado, na internet Os suplentes no Senado não têm compromisso com nenhum eleitor O Senado Federal vira de pernas para o ar todos os conceitos morais e institucionais republicanos no cabuloso escândalo protagonizado por seu presidente, Renan Calheiros (PMDB-AL), e promete novas cambalhotas em outro caso de dimensões mais modestas, o de Joaquim Roriz (PMDB-DF). A história do senador adúltero que leva a amante a tiracolo em viagens internacionais bancadas pelo dinheiro do desdentado da favela é tão comum que Juca de Oliveira a transformou na comédia Às Favas com os Escrúpulos, em cartaz em São Paulo. A peça é estrelada por Bibi Ferreira e o principal papel masculino, do próprio autor, poderia ter sido entregue ao pai dela, Procópio, contemporâneo de casos semelhantes ao do fictício senador Bernardo, de qualquer época, de qualquer partido e sem vergonha alguma. Chega, porém, a ter tal atualidade que parece ter sido a realidade que imitou a ficção, e não o contrário. Mas nem a habilidade conquistada ao longo da experiência de repetidos sucessos cênicos inspirados na desavergonhada miséria ética nacional levou o dramaturgo a imaginar uma situação em que, apanhado em flagrante delito, o ilustre réu escolhe o juiz, nomeia o promotor e indica cada um dos jurados. Desde o babilônio Hamurabi não há notícia de julgamento tão esdrúxulo. Pelos serviços prestados ao governo, o presidente do Congresso conta com a cumplicidade do Poder Executivo, tendo em Romero Jucá (PMDB-RR) e Ideli Salvatti (PT-SC), cuja mão foi flagrado beijando, defensores de um denodo capaz de ofuscar os momentos de mais justa indignação cívica de Sobral Pinto e Evaristo de Morais, com o perdão do mau uso da memória deles nestas linhas. O corregedor Romeu Tuma (DEM-SP) preferiu inocentar o colega a honrar o currículo de xerife de competência reconhecida a ponto de se transformar em razão do voto de milhões de paulistas. Sua má vontade em investigar foi desmascarada na primeira esquina por um telejornal, cujos profissionais se limitaram a conferir as notas fiscais com as quais o réu tentou se explicar, mas só se complicou. A presidência do conselho de sentença foi entregue a um ilustre aliado do réu, Sibá Machado (PT-AC), cujo senso de justiça pode ser medido pelo projeto que patrocina pretendendo a substituição do exame vestibular pelo sorteio das vagas em universidades, por ter o próprio pimpolho sido reprovado. O primeiro relator, Epitácio Cafeteira (PTB-MA), foi trazido do ostracismo em que se encontrava para se deixar encandear pelo brilho fátuo dos holofotes do noticiário. E sucumbiu, em seguida, ao contraste entre o peso da responsabilidade da absolvição do companheiro e o clamor das ruas. O caso do ressurrecto que voltou à paz do esquecimento com atestado médico não tem registro histórico ou mitológico. Não consta da Bíblia, nem de Homero ou mesmo de As Mil e Uma Noites. Mas os aliados de Renan no Senado surgem de todos os lados e são de todos os partidos. Comove o constrangimento com que os líderes da dita oposição, puxados pelo paletó pela indignação nacional, evitaram o arquivamento in limine do relatório que nada relatava. José Agripino Maia (DEM-RN) e Arthur Virgílio (PSDB-AM), que correram para o abraço no que a corporação achou que poderia ter sido um gol presidencial, a fala do trono ante a mulher traída, agora tentam salvar a face. Mas, como o desafeto de José Américo de Almeida, choram pelo olho de vidro: seus adversários bem sabem que o que não pôde ser arquivado deve ser esquecido e o não faltam possibilidades de delongas numa Casa onde poucos não contam com a hipótese de o tempo ser, não o senhor da razão, como queriam os romanos, mas um escravo da malandragem cínica. Epitácio Cafeteira atribuiu à própria esposa o ridículo papel a que se prestou. Mas, na verdade, ele sabe que é morador da sesmaria dos Sarney e ao melhor amigo de Renan deve seu mandato, mais que ao difuso e desconhecido eleitorado maranhense. Seu substituto, Wellington Salgado, o brevíssimo, tal como Sibá Machado, nem satisfação deve a cidadão nenhum, pelo simples e ineludível fato de que nenhum dos dois tem eleitor algum. A impunidade de Renan Calheiros pode ser garantida por vários fatores intrínsecos ao sistema representativo da democracia brasileira, que vão desde o fato de ele ser um craque na arte de "fazer amigos e influenciar pessoas" até o corporativismo, que, se é grande na Câmara, maior ainda é no Senado. Recentemente este jornal exumou evidências deste truísmo. Apesar dos pesares, a Câmara já teve de expelir alguns peixes gordos de seu aquário, entre estes José Dirceu e Roberto Jefferson. Os senadores são mais "leais" aos colegas e, quando levam um a deixar o convívio, caso de ACM, logo o recebem de volta, festejando a sábia máxima brasileira segundo a qual o povo sempre esquece e o eleitor sempre perdoa. Aleluia, irmãos! O caso é que essa engrenagem só consegue funcionar porque é azeitada pela falta de compromisso dos sem-votos. Compara-se muito o velho Senado de Machado de Assis com este. E a diferença fundamental é que a Casa já foi, como queriam os fundadores da instituição, cidadãos romanos, o lugar do debate entre os mais sábios e probos. A regra eleitoral que determina a escolha dos senadores hoje permite que Sibá Machado e Wellington Salgado se iniciem por lá. Um é suplente de Marina Silva, ministra do Meio Ambiente. O outro, de Hélio Costa, ministro das Comunicações. Nenhum dos dois tem compromisso com eleitor nenhum, com nenhum conceito, com nada. É gente assim que assegura a permanência da impunidade. Os escândalos Renan Calheiros e Joaquim Roriz deslustram o Senado. Mas o envergonham ainda mais seus suplentes sem votos. E só o voto popular pode acabar com essa pouca-vergonha.

*José Nêumanne, jornalista e escritor, é editorialista do Jornal da Tarde