A recuperação da economia brasileira

por  Gilberto Caruso Ramos  - Rio, 23.10.00. -

 Gilberto RamosNunca acreditei muito nas estatísticas brasileiras, principalmente as oficiais. Entretanto, é o IBGE a principal fonte de informações de que dispomos e os dados obtidos são animadores. O crescimento da economia brasileira (PIB) neste 1º semestre foi de 3,56%. Isso nos dá esperanças de que podemos fechar o ano muito perto dos 4% de crescimento, portanto, dentro das previsões do governo. Que bom !

Essa expansão vem sendo liderada pelo setor industrial com 4,7% de crescimento; o agropecuário vem em seguida com 3,9%; o segmento de serviços é o lanterninha com 3,0% a/a, impulsionado pelo extraordinário aumento das comunicações (+ 16,31%). Viva a privatização deste setor que estava estagnado e sem capacidade de investimentos.

Mas o fundamental é sabermos se esse crescimento é apenas esporádico, ou pode representar o início de um ciclo sustentável de crescimento. O fato é que a queda dos juros internos aliada às exportações crescentes, ajudou bastante. É bem verdade que os preços internacionais dos produtos brasileiros está ainda muito aquém do desejável, o que tem sido compensado pelo maior volume exportado. Minha preocupação é com a fragilidade conjuntural: nossas reservas cambiais estão muito baixas (U$ 31 bi em setembro) e o aumento do salário mínimo poderá reduzir a competitividade dos produtos brasileiros exportáveis. Salário representa custo a ser agregado ao produto, queiramos ou não.

A balança comercial acendeu um luz vermelha de advertência em setembro (- U$ 320 bi). Isso ocorreu embora o volume exportado tenha crescido, e significa, portanto, um excesso de importações, sobretudo pela importação de petróleo mais caro. Outro aspecto ao qual devemos atentar é a compressão do mercado externo em face da dependência americana de petróleo do Oriente Médio e, sobretudo, a elevação dos juros internos nos Estados Unidos visando conter a expansão da economia americana e, por conseguinte, a demanda por energia.

Uma coisa é certa: não podemos aumentar nosso deficit em conta-corrente pois nossos habituais financiadores estão de olho vivo em qualquer desmando da economia brasileira, sobretudo agora que temos que dar satisfações ao FMI. Nosso deficit em 98 foi de U$ 34 bi e caiu em 99 para U$ 25 bi, o que foi conseguido graças à uma recessão dolorosa socialmente. O dificil será repetir essa melhoria nas condições gerais da economia brasileira, sobretudo com um cenário externo nebuloso e, por conta disso, a balança comercial adversa.

Seja como for, o fôlego da economia brasileira é enorme e já passamos por piores situações. Temos que acreditar que estados e municípios venham a ser bem administrados para que não pressionem ainda mais o deficit em conta-corrente. Prefeitos e governadores não têm o direito de acusarem o governo federal se eles próprios não fazem a lição de casa.