Anistia para inglês ver?

Gilberto Ramos – economista – turma Monteiro Lobato da ESG

É despropositada a polêmica sobre a abertura dos arquivos dos tempos da ditadura militar. Trata-se de medida que em nada vai ajudar a pacificar os espíritos. É de se reconhecer a legitimidade das famílias dos que morreram naqueles tempos sombrios em dar um enterro minimamente cristão aos seus amigos e parentes. Mas sinto que o tema está sendo empurrado com ar de desforra. Ademais, leve-se em conta que a anistia (ampla, geral e irrestrita) deve valer para ambos os lados e quem cometeu desatinos já apagou os rastros. O esforço deve ser, unicamente, no sentido resgatar os cadáveres, embora reconhecendo que os ressentimentos ainda estão vivos. Mas paremos por aí. E não me falem em direitos humanos pois o sofrimento atingiu os dois lados. Seria lamentável abrir estas feridas de triste memória da história brasileira. Se alguns querem apenas fazer espuma, lembrem-se que, ao contrário de Chile e Argentina, não temos Videlas e Pinochets para servirem de bode espiatório do revanchismo, os chefes militares do período revolucionário estão todos já enterrados. Identificar os mortos, localizar os vivos, filtrar as indenizações que estão sendo concedidas a mancheia, tudo isso seria saudável para a democracia brasileira. Também espero que não usem os mortos para a demagogia barata de enterros bombásticos, conclamando os saudosistas para se enfrentarem à beira de cada túmulo. Guardem os discursos de demagógica eloquência para os tribunais onde são julgados – ou deveriam ser - os que, de fato, ofendem esta nação com ações de improbidade. Confesso-me mais assustado com a violência de hoje do que com os excessos de ontem.