O avanço das direitas na Europa

Edoardo Pacelli

Dom Gianni Baget BozzoNum recente artigo publicado na Itália, Gianni Baget Bozzo, padre analista político, afirma que na Europa os partidos de centro-direita e de direita estão ganhando, pois os indivíduos perceberam não serem todos iguais. A vitória, nas últimas eleições, na Holanda, dos democratas cristãos e da lista de Pim Fortuyn, representa o derradeiro passo de uma caminhada natural e irreversível, sinal que estamos chegando ao fim da cultura moderna, pois acabou a fase do homem considerado como ser genérico, componente anônimo da humanidade. Esta visão está se esvaziando, seja no plano do liberalismo, seja, sobretudo, no plano do marxismo. Analisar os recentes avanços, na França e na Holanda, dos partidos de direita justificando-os como difusão da xenofobia, do egoísmo e com a perspectiva de uma redução dos impostos, significa limitar-se a uma análise superficial, isto porque "o fim do comunismo-religião leva ao fim do homem genérico, enquanto o indivíduo com sua alma e, sobretudo, com seu corpo, volta a emergir. Hoje o homem recomeça a não mais sentir o dever de ser politicamente correto em seu relacionamento com a humanidade e colhe as definições corpóreas como definições pessoais. Penso nas mulheres e nos homossexuais, me referindo a Fortuyn. Mas atenção, o valor corpóreo é um valor ideal, é saborear a própria diferença e a própria particularidade, defendendo-a e valorizando-a. Não é ser fêmea, é ser mulher. Não é ser veado, é ser gay". Alguém poderia questionar que, tradicionalmente, todos os movimentos social-democratas estiveram sempre ao lado das feministas e dos homo-sexuais, mas, continua Baget Bozzo, "existe na social-democracia, agora perdedora, uma subalternidade histórica ao comunismo. O comunismo era a religião da igualdade ideal, a social-democracia era a política da igualdade possível. Vale dizer, o comunismo exaltava o homem sem características e sem rosto. A social-democracia propôs um modelo que se situa no meio, a famosa terceira via, na qual os homens são iguais, quanto mais possível. Para o comunismo a igualdade dos indivíduos era o valor absoluto. Para a social-democracia, a igualdade se torna o valor não total, não alcançável através da violência absoluta, torna-se, pelo menos, valor primário". Contudo, não tem sentido uma terceira via no momento em que não existe mais a segunda, estando o comunismo morto. É por causa deste processo que reaparecem, com grande força, as identidades étnicas. "O povo é, ao mesmo tempo, etnia, força, essa, arrasadora. O povo, como os indivíduos, não está mais oprimido pela ideologia da humanidade, igual e indivisível; ele reapresenta a questão étnica e repropõe a autonomia lingüística. O drama iugoslavo nada mais é senão isso". É este conceito que fornece a razão de existir a Umberto Bossi, na Itália, Joerg Haider, na Áustria, Jean-Marie Le Pen, na França, e Fortuyn, na Holanda, apesar deles serem homens e políticos profundamente diferentes entre si. "O que emerge é o particular, continua Baget Bozzo, que conduz Bossi a uma política aparentemente nova; de favorável à secessão e à autonomia, ele vai se transformando em patriota, tornando-se paladino da identidade nacional". Bossi vai contra o pensamento dominante, contra o pensamento único, contra a utopia da igualdade. Nasce um novo mundo onde não se responde com escolhas ideológicas a problemas abstratos, mas com escolhas concretas a problemas reais. A globalização é a demonstração que a igualdade não existe e não nos pertence. O que nos pertence são as diferenças. É normal que a globalização avantaje mais o cidadão americano que o do Burkina Faso, pois os homens não são iguais. Este raciocínio parece um discurso escandaloso e pouco cristão, mais "o enunciado segundo o qual "todos os homens são iguais como os dentes do pente", pertence ao Alcorão, não à Bíblia. Cristo nos ensinou o amor e o amor é um conceito que subentende a diversidade. Se todos fossem iguais, não seria preciso predicar o amor".