Como ser um sobrevivente

Gilberto Ramos

O ordenamento bíblico -- crescei e multiplicai-vos -- levado ao pé-da-letra, é a desculpa religiosa que explica a explosão demográfica brasileira das últimas décadas. Por conta desta expansão populacional o Brasil rompeu a equalização entre oferta e demanda de serviços públicos, e o governo acabou refém da política menor e clientelista. A questão do planejamento familiar é um tabu que os políticos brasileiros detestam discutir, ou porque não conhecem os dados, ou porque preferem continuar se locupletando eleitoralmente da dramática trilogia: miséria, sopão e voto. Vamos para mais uma campanha eleitoral e, certamente, esse tema não será sequer mencionado pelos candidatos. Aliás, o Brasil anda com escassez de políticos e excesso de candidatos.

O Dr. Paul R. Ehrlich, respeitado cientista político americano, publicou uma obra indispensável para as bibliotecas dos políticos sérios - The Population Bomb. Esse impressionante estudo escrito em 1968 vem sendo confirmado pelas variações demográficas desde então. O mais impactante é a conclusão do autor: se todos os pobres deixarem de ser tão pobres, e basta só um pouquinho, o mundo não suportará a demanda de energia e as reservas naturais tornar-se-ão insuficientes.

A ONU realizou em 1994, no Cairo, uma conferência específica para discutir População e Desenvolvimento. Já em 1984, em Acapulco (México), a questão populacional reuniu os maiores demógrafos do mundo. Nos dez anos de intervalo entre os dois eventos as preocupações foram, progressivamente, alteradas. No México a preocupação principal era a exaustão dos recursos naturais; no Cairo o centro da discussão foi o novo perfil da ocupação planetária.

Paises que tinham taxas de fecundidade preocupantes (China, Cuba, Coréia do Sul, Tailândia e Brasil) estão, felizmente, com taxas declinantes. Outros paises prolíferos (Argélia, Irã, Bangladesh e Egito) também estão reduzindo a fecundidade (filhos/mulher em idade fértil). Neste últimos países a taxa de filhos/mulher caiu de 7 para 5 nos últimos 20 anos. O grande problema continua sendo a África Negra onde todas as tentativas fracassaram e a população daquele continente, tão pobre em recursos naturais, já alcança 1,1 bilhão de pessoas.

O Brasil é um bom exemplo de redução da taxa de natalidade. Na década de 50 a população crescia a 3,1%/ano, baixamos para 2,4% nos anos 70 e, atualmente, diminuímos para 1,4%. Isso quer dizer que 165,7 milhões de brasileiros este ano. Paises problemáticos como México e Índia também apresentam razoável queda da taxa de natalidade. O planeta Terra agradece.

A Europa, curiosamente, apresenta uma inversão de tendência. A Escandinávia está com taxa um pouco crescente. Enquanto isso, Itália e Espanha, que eram os países com maior aceleração populacional, agora estão com taxas baixas. Uma coisa é certa: não são os programas governamentais que inibem o crescimento populacional nos paises subdesenvolvidos. Excetuando-se a China que implementou um rígido programa de controle de natalidade, já se sabe que o principal ingrediente de contenção da natalidade é a rápida urbanização. Essa é uma verdade estatística incontestável. Vide o Brasil.

De fato, nas cidades as mulheres têm melhor acesso a métodos e esclarecimentos anticonceptivos. Comparando-se a população rural e urbana, desprezando-se o grau de desenvolvimento do país examinado, a taxa de natalidade das cidades é bem menor do que no meio rural. Todos os indicadores demográficos mostram que, neste final de século, a população urbana do mundo ultrapassará 50% do total. Felizmente ou infelizmente ?

Esse fenômeno já está acontecendo no Brasil: desde 1970 nossa população urbana já ultrapassou a rural. O nó é que as classes que poderiam prover bem-estar para suas proles, são justamente elas que estão com taxas abaixo da média. Ou seja, os miseráveis continuam procriando descontroladamente. O Brasil tem todas as condições de dar um grande salto de desenvolvimento no séc. XXI mas, para isso, temos que priorizar a educação, o melhor anticoncepcional que se conhece.