Desse jeito matamos com o Battisti

Pietro Mutti, 56 anos, fundador do Pac - Entrevistado pela Revista italiana Panorama

Pietro Mutti, fundador do grupo PAC, durante o processoSe o caso Cesare Battisti tornou-se uma confusão internacional também é culpa do Pietro Mutti que, exatamente 30 anos atrás, chefiou o comando que fez escapar o ex terrorista Battisti, hoje disputado entre Itália e Brasil, do presídio de Frosinone, aonde estava trancado por uma condenação há 12 anos por assaltos armados, favorecendo a sua fuga. Pietro Mutti, nascido em 1954, o ex companheiro do Battisti no PAC, os Proletários Armados para o Comunismo. Em 1981 Mutti, recém-ingressado em Prima Línea (um grupo terrorista), vivia em um refugio em Roma, a poucos metros da Basílica de San Giovanni. A grande fuga começou em um domingo de outubro quando, junto com Battisti, que tinha 27 anos e originário de Sermoneta (à 50 Km de Roma), fugiu também um jovem membro da Camorra, a máfia napolitana. “Não nos surpreendemos, o Cesare era e continuou sendo mais um pequeno delinquente do que um extremista político”, diz Mutti. O grupo cruzou a pé as montanhas e, depois, chegou à Roma de trem. A partir daqui, Battisti foi para Bolonha, onde se refugiou na casa da sua namorada naquela época, uma funcionária que precedentemente namorou um dos fundadores do PAC. A mulher dividia o apartamento com outro rapaz. Os nomes deles nunca foram revelados em nenhum processo. Mutti também prefere não fazê-los. De Bolonha Battisti fugiu para a França, depois para o México, para voltar novamente à França e, finalmente, em 2004, ao Brasil, graças, é o que se diz, aos serviços secretos franceses. “Tenho certeza de que, mesmo se o Brasil tivesse-o extraditado para a Itália, antes que ele pudesse voltar ia escapar novamente e mudar para outro lugar”, declara o Mutti que diz também que: “Na Itália, de qualquer jeito, ele nunca vai voltar. Fiquem tranquilos”. Mas quem está por trás da impunidade do Cesare Battisti? “Eu acho que a França e alguns de seus intelectuais, talvez Carla Bruni, a esposa de Nicolas Sarkozy”, continua o ex-terrorista, “mas eu não lido com a política internacional”.
Mutti hoje vive em Milão, cidade onde ele nasceu e cresceu. Nos anos 70 ele participou do terrorismo, fez 45 roubos à mão armada, matou um homem, depois tornou-se colaborador da justiça e cumpriu oito anos de prisão. Em 3 de janeiro de 2011, numa noite sem névoa, ele espera o repórter na esquina de uma das ruas da zona leste de Milão. Entre os dedos tem um cigarro marca Mérit vermelho. Ele fuma pelo menos 20 cigarros por dia: começa ao amanhecer, quando sobe no ônibus que o leva ao trabalho, na periferia de Milão. Veste uma calça jeans, uma blusa cinza e um casaco azul, com gola de pele sintética. Um pequeno chapéu na cabeça, óculos e bigode grisalho. É pequeno e delgado. Ex-operário da Alfa Romeo, em 1977, junto com um professor da escola secundária e de um jovem imigrante da Sardenha, foi ele quem fundou o PAC, um grupo que em pouco mais de um ano assumiu a responsabilidade por quatro assassinatos e disparou nas pernas de inúmeras pessoas. Daquele grupo também Battisti fazia parte: “Mais ele se juntou a nós mais para escapar de seus problemas com a lei do que para o ideal político “. De fato, com pouco mais de vinte anos, Battisti já tinha sido condenado por vários assaltos, entrou e saiu inúmeras vezes das prisões italianas e, no início de 1978, após o assalto a um correio na região do Lázio, procurou refúgio em Milão onde estava em contato com Arrigo Cavallina, o ideólogo do PAC, conhecido na prisão de Udine. Em um bar gerenciado por chineses, na frente de duas sambucas e dois Fernet Branca, Mutti comenta os fatos mais recentes do caso Battisti.


O que o Senhor acha da decisão do ex-presidente do Brasil, Lula, de não extraditar Battisti para a Itália?
Acho que Battisti tem sido mais inteligente de todos. Ele não era um personagem do nível do Renato Curcio, nem do Valerio Morucci, que se dissociou do terrorismo para sair “limpo” e que agora é bem sucedido. Mas Cesare, ao contrario, conseguiu fugir. Ele enganou todos e agora provavelmente vai curtir sua vida sem nunca ter pago por seus pecados.
O Senhor é testemunha ocular do assassinato do marechal da policia penitenciaria Antônio Santoro morto por Battisti
Sim, eu o vi com meus olhos matar naquela manhã em Udine (era dia 6 de junho de 1978). Battisti e Enrica Migliorati (uma estudante de 20 anos de idade, membro do PAC) estavam abraçados como dois namorados na frente da casa de Santoro. Quando o marechal saiu, Battisti disparou por trás dele (três tiros, dois a queima roupa na cabeça, com um revólver Glisenti calibre 10.20). Eu e outro amigo, Cláudio Lavazza, operário como eu, observamos tudo do carro onde nós os esperávamos. Eu não me lembro se virei minha cabeça ou se eu observei a cena do espelho retrovisor do nosso Simca 1300. Mas eu vi que foi ele a disparar.
O Senhor tem certeza do que diz?
Eu não tenho nenhuma dúvida. Foi ele quem disparou, quem escolheu a vítima, juntamente com o Cavallina (ambos tinham conhecido Santoro na prisão), ele quem fez as inspeções prévias, ele quem levou as armas embora no trem depois da emboscada.
Quando fugiram depois de matar a Santoro, o Senhor, disfarçado com bigode falso, saudou uma testemunha, levantando o punho fechado. Vocês estavam agitados?
Eu me lembro da adrenalina para o primeiro assassinato, mas não havia nenhuma alegria ou desespero. Para nós esta foi uma operação militar. Você tinha que agir. Ponto.
O Senhor alega que Battisti foi também o autor material do crime do agente Andrea Campagna. Nos atos processuais da época o Senhor disse que o crime foi uma “loucura” do Cesare e do companheiro Giuseppe Memeo.
Confirmo essas palavras. Sua participação, foi ele mesmo que me disse.
Battisti foi preso por causa destas lembranças do Senhor, destas declarações, das palavras de um colaborador de justiça. Mas no Brasil Battisti diz que o Senhor fala mentiras.
Apesar dele não ter sido condenado apenas por minhas afirmações, de qualquer forma, foi acusado e julgado por juízes muito importantes que não acredito terem se enganado pelo meu depoimento. Em todo caso, eu gostaria de ouvir com meus ouvidos Battisti me chamar de mentiroso.
Do exterior Battisti chamou o Senhor de “um carrasco, cujo falso testemunho prestado em minha ausência, custou-me uma sentença de prisão perpétua”.
Sobre mim disseram coisas piores. No entanto, quando eu contei aos juízes a história do PAC eu acusei a mim mesmo inclusive por atividades para as quais não havia nenhuma evidência contra mim. Eu apenas disse a verdade sem culpar inocentes.
Os que apóiam Battisti descrevem o Senhor como uma “figura fantasmagórica” e se perguntam: “quem sabe se ele ainda está vivo, quem sabe onde ele vive e o que ele faz com a nova identidade conferida pela lei dos delatores”.
Posso mostrar-lhe o meu bilhete de identidade: eu nunca mudei meu nome ou a minha cidade. É o amigo deles que passou a vida inteira fugindo e se escondendo.
Se hoje o Senhor encontrasse Battisti o que perguntaria para ele?
Na verdade eu acho que vou fingir que não o conheço. Não tenho mais nada a dizer para ele. O passado é passado. Desta história não me interessa mais nada. Eu fechei minhas contas com o meu passado.
O que o Senhor sente em relação a Battisti?
Amar eu nunca o amei. Tínhamos temperamentos muito diferentes. Mas jamais o odiei. Hoje simplesmente eu não me importo com ele.
O que o Senhor pensa ao vê-lo sorrir em fotos e algemado no meio da polícia brasileira?
Eu vejo o Battisti de trinta anos atrás. Ele sempre foi um cara inteligente, um cara arrogante. Mas quando eu olho para aquele sorriso, eu acho que ele foi o mais esperto de todos. Quem se ferrou, me desculpe a vulgaridade, foi a justiça italiana.
Qual é a primeira coisa que vem à mente, quando o Senhor pensar nele?
Seu olhar. Lembro-me de um jantar em um antigo restaurante em Milão com uma companheira. Nas paredes pendiam as cabeças de animais empalhados. A garota olhou para a raposa e disse: “Ele tem os mesmos olhos do Cesare”.
Então Battisti foi o mais esperto . Mas foi também o mais cruel?
Éramos mais ou menos todos iguais. Pessoas determinadas. Digamos que ele não era um sacerdote, mas em matéria de crueldade não posso dar notas. Eu também disparei. E quando decidimos matar alguém ou dar um tiro nas pernas de outro, eu não tinha problemas para dormir a noite.
A diferença é que Battisti nega ter feito isso. O Senhor nunca sentiu remorso?
E como! Eu matei um policial de segurança acidentalmente. Por muitos anos acordava a noite de repente a pensar sobre ele e sua família. Também o pensamento dos companheiros que tinha “traído” pelo meu arrependimento abalou-me por um longo período. Às vezes, estes dois pesadelos se cruzavam. Mas hoje eu venci essa angústia.
E Battisti, o Senhor acha que as vezes ele é realmente assombrado pelos fantasmas do passado?
Se eu o conheço bem, não. No máximo se convenceu de ter sido “preso” por um truque. Se algum dia irá admitir que matou, vai dizer que nós o colocamos no meio, ele pobre menino provinciano, que nós o envolvemos numa história maior que ele. Ele sempre correu atrás dos seus interesses. Antes, depois e agora. Mas não o culpo. Ele pensou em escapar e conseguiu.
O senhor tem um filho que está para se tornar um adulto. Ele conhece o seu passado?
Sim. Também discutimos do Battisti. Mas faz tempo. Hoje não sei como pode me julgar ou o que acha do Cesare.
Em 2009 foi feito um filme sobre Prima Línea, com seus velhos companheiros Susanna Ronconi e Sérgio Segio …
Eu já ouvi falar, mas não o vi.
Se um diretor quisesse contar a história do PAC, quem poderia interpretar o Battisti?
Eu acho que seria ótimo Fabrízio Corona, mais pela sua atitude que pelo aspecto físico.
A justiça italiana tem alguma culpa nisso?
De não ter me impedido antes de ajudar Battisti a escapar da prisão de Frosinone. Sem aquela fuga, teria sido uma história diferente.

Titolo

13 de março de 1972 Cesare Battisti é preso em Frascati (Roma), por roubo agravado.

19 de junho de 1974
Battisti é processado por lesão corporal agravada.

2 de agosto de 1974
Battisti é preso em Sabaudia (Latina, 50 Km de Roma) por assalto à mão armada e seqüestro.

25 de outubro de 1974
Battisti é denunciado por sequestro de incapaz para fins de luxúria violentos.

Janeiro-fevereiro de 1977
Battisti entra na prisão por roubo em Udine, conhece Arrigo Cavallina condenado por eversão. E’ ele que o "converte" à luta armada.

16 abr 1977
Libertado da prisão, Battisti entra na clandestinidade e se junta àos PAC, grupo dos terroristas comunistas

06 de junho de 1978
Antonio Santoro, sargento das guardas penitenciárias em Udine, é morto por mão do PAC.

16 fevereiro de 1979
O PAC mata o joalheiro Pierluigi Torregiani e o açougueiro Lino Sabbadin, uma execução porque os dois tinham matado por legitima defensa dois assaltantes durante um roubo.

19 abr 1979
Em Milão, o PAC mata o agente da Policia, Andrea Campagna.

26 jun 1979
Battisti é preso em Milão.

4 de outubro de 1981
Um comando terrorista ataca a prisão de Frosinone: Battisti escapa da prisão. Foge primeiro na França e depois no México. Mais tarde, em 1990, volta à Paris.

30 novembro 1990
Battisti é preso pela polícia de Paris, sob suspeita de preparar um assalto.

Abril 1991
A Itália pede a sua extradição. Os tribunais da França a negar e o deixam livre.

Janeiro 2003
A Itália pede novamente sua extradição.

10 fevereiro 2004
Battisti é preso novamente em Paris.

04 março de 2004
É liberado com a obrigação de firma uma vez por semana na delegacia policial.

30 de junho de 2004
Os tribunais franceses dão luz verde à sua extradição.

21 de agosto de 2004
Battisti foge novamente, desta vez para o Brasil.

18 de março de 2007
Battisti é preso em Copacabana.

13 de janeiro de 2009
Brasil nega a extradição e concede o refugio político