Direita sem medo e com voto

Artigo de Cleber Benvegnú * Especial para a Zero Hora (10/01/08, pg. 21)

Nem tudo nos Estados Unidos, por óbvio, é melhor do que aqui. Não fui tomado pela “síndrome do coitadismo”, essa postura nacional segundo a qual somos condenados à eterna exploração pelos países ricos. Tanto lá quanto aqui, por exemplo, vige esse presidencialismo ineficiente, ilógico e ultrapassado, que a Europa já deixou para trás há décadas. Esse é um dos motivos pelos quais, a propósito, aquele continente inteiro saiu do caos em que se encontrava depois da última Guerra Mundial. Já nossa América Latina, que se orgulha do voto direto para presidente, como se isso fosse o auge democrático, continua refém da excessiva concentração de poder nas mãos de uma única pessoa, o presidente da República. A política norte-americana, entretanto, cuja sucessão presidencial começou há poucos dias, já demonstra algumas diferenças significativas em relação à nossa. Uma das principais é a postura da direita e da centro-direita, que aqui se esconde, se disfarça e se constrange, enquanto lá tem cara, nomes, bandeiras e organização. Os republicanos incorporam o “conservadorismo” como uma postura ideológica legítima e responsável por grandes feitos da humanidade. O campo conservador agrega pessoas mais tradicionais, normalmente cristãs, que, por exemplo, primam pelo respeito à instituição familiar, são contrárias ao aborto, à luta de classes e à liberação da maconha, e que defendem a propriedade privada, a liberdade de expressão e a educação desideologizada. Segundo as pesquisas, esse eleitor existe também aqui e – pasmem – é majoritário! Porém, especialmente em virtude da ditadura militar e do avanço do processo gramscista de hegemonia cultural, o campo conservador brasileiro foi adotando uma postura cada vez mais resignada e covarde, a ponto de, na última eleição presidencial, não haver um candidato sequer que se posicionasse fora da esquerda, como se tal campo político tivesse um manto hegemônico de pureza e bondade. Ora, enquanto critica, com alguma razão, a ditadura militar brasileira, parte da esquerda brasileira ainda aplaude os genocídios do comunismo mundo afora, inclusive os atuais. Não quero, por ora, entrar no mérito das escolhas ideológicas. O que sublinho, isso sim, é a coerência de um campo político em posicionar-se segundo o que pensa parte significativa do eleitorado, sem florear ou ceder à dominação intelectual da esquerda. Essa mesma postura faz falta ao Brasil.