Dos Anarquistas aos Acadêmicos

– Zora: Come nasceu seu primeiro livro?
– Zelia: Escrevi meu primeiro livro, Anarquistas, graças a Deus, aos 63 anos. Não havia escrito nenhum livro antes, nem pretendia escrever, Fizera apertas uma reportagem sobre a visita de Sartre e Simone de Beauvoir ao Brasil - texto e fatos - publicada na revista Manchete. O meu forte, ou o meu fraco, era contar histórias, sempre foi. Baseada nisso, minha filha Paloma pedia-me que escrevesse uma das tantas histórias de minha infância, não para publicar, dizia ela, para guardar para minhas filhas. Estimulada por Jorge que ao ler as páginas que eu escrevera, fui em frente. No livro que acabo de escrever e que em breve estará nas livrarias A Casa do Rio Vermelho, conto como a coisa aconteceu: Nunca pensara poder sentir tantas e tais emoções, àquela altura de minha vida, aos 63 anos de idade, como as que senti ao escrever Anarquistas, graças a Deus. Comecei a escrever minha história e no entusiasmo, as folhas escritas aumentavam: não é que essa danada é muito mais longa da que eu imaginava? Disse eu com meus botões e continuei escrevendo. Ao chegar às quinze páginas vi que não havia ainda contado tudo. Enquanto esperávamos que o almoço fosse servido, criei coragem e, morta de encabulamento, estendi as quinze páginas a Jorge: leia. Entreguei as folhas e saí da sala conjecturando: e se ele rir? Eu também riria. E se ele disser: que besteira é essa? Eu calaria. E se ele me devolver as folhas sem dizer nada? Eu choraria. Tudo isso poderia acontecer, Jorge não ia, nunca, fazer um elogio só para me agradar, não é de seu feitio. Ele jamais iria me expor ao ridículo. Em se tratando da mulher e dos filhos, ele possui um sentido crítico severo, não dá colher de chá. Jorge me chamou: cadê você? Senta aqui. Sentei a seu lado, esperando a sentença. «Gostei do que você escreveu, foi dizendo, gostei da simplicidade da escrita. Coisa difícil de se conseguir... ... Você que foi menina pobre mas teve uma infância rica de acontecimentos, criada num meio de imigrantes estrangeiros, de família integrante da Colônia Cicília, de anarquistas sonhadores, que assistiu ao crescimento de São Paulo, poderia escrever um livro de tudo o que viveu e recorda. Quero te dar apenas um conselho: escreva com a mesma simplicidade com que escreveu estas quinze páginas, será um livro escrito com emoção, de dentro para fora, com o coração, ao contrário dos historiadores que pesquisam e escrevem de fora para dentro. Seu livro será único». Foi assim que surgiu Anarquista, Graças a Deus. Depois, tive vontade de escrever sobre as origens de Jorge o saiu o segundo livro: Um Chapéu para Viagem. Tomei gosto e, até hoje, continuo escrevendo, continuo me emocionando ao narrar as experiências de nossa vida. Até um romancinho, Crônica de uma namorada me atrevi a escrever, pondo minha imaginação a trabalhar, ficção do começo ao fim, emoção e divertimento também do começo ao fim.
– Zora: Como foi a sua vida com Jorge, na Europa?
– Zelia: Minha vida com Jorge na Europa, foi vida de muito sacrifício porém das mais produtivas. O que aprendi nessa viagem, no convívio e no conhecimento de pessoas, as mais representativas deste século, nos caminhos do mundo, os mais distantes, não aprenderia num curso universitário, curso que nunca fiz. O que sei, muito ou pouco, aprendi com a experiência da vida.
– Zora:O que você aprendeu, na vida?
– Zelia: Uma coisa aprendi: é errando e acertando, trabalhando sem preguiça que se aprende, Hoje em dia sinto mais facilidade para escrever do que no princípio. Nos mudamos para a Bahia há 32 anos. Nossos filhos, João Jorge e Paloma tornaram-se adolescentes, e o clima do Rio de Janeiro onde vivíamos, tornava-se pesado. A violência e a maconha andavam na berlinda. Nos mudamos para preservar nossos filhos.
– Zora: De que trata seu último livro?
– Zelia: No meu livro “A Casa do Rio Vermelho” conto histórias que mostram a evolução da Bahia, falo de seus artistas, de seus intelectuais.
– Zora: Qual sua relação com o computador?
– Zelia: Não fosse o computador eu estaria perdida. Ele tornou-se meu maior e melhor colaborador. Nunca fiz curso de computação. Meus filhos me deram algumas instruções para o trivial, que é o que me basta. Uma coisa aprendi por experiência própria: o meu pequeno Toshiba exige de mim muito respeito. Devo ver bem o teclado, apertar a tecla certa senão ele reclama, aparecem avisos e eu me afobo toda. Felizmente me saio bem, com ou sem ajuda, das enrascadas em que me meto.