Fantasias pós-revolucionárias.

Gilberto Ramos

Ninguém duvida que a revolução de 64 cometeu excessos, pessoas foram torturadas, perseguidas e exiladas, alguns morreram nos porões da ditadura, a liberdade de opinião foi violada, a justiça foi contestada e as leis foram desrespeitadas. Houve baixas de ambos os lados. Os militares fizeram a revolução ao argumento de que estavam defendendo a democracia; os subversivos agiram com a desculpa de que queriam a restauração das liberdades democráticas. A grande contradição era justamente o uso das palavras mágicas -- democracia e liberdade -- para justificar as violências cometidas por ambas as partes.

Ressurge agora o tema da operação Condor, um movimento em bloco dos militares dos países do cone sul, visando o enfrentamento dos inconformados com as ditaduras vigentes à época. À reboque da divulgação da Operação Condor são levantadas dúvidas quanto às mortes de JK e Jango. Se a imprensa quiser ser coerente, há que se investigar também as mortes de Café Filho, Nereu Ramos, Carlos Lacerda, Castelo Branco e Tancredo. Teriam Lacerda e Tancredo sido vítimas de erros médicos intencionais ? e os aviões de Nereu e Castelo teriam sido sabotados ? Café Filho ficou mesmo doente? Enfim, a lista de suposições vai longe e para nossa imaginação o céu é o limite. Ia me esquecendo: que tal designar repórteres para desvendar a morte de Tiradentes? Incrível: até hoje não se conhece o local exato do enforcamento.

Só uma cabeça muito criativa, engenhosa e vazia poderia supor que o acidente que matou JK  tenha sido planejado. Como cronometrar com precisão de centésimo de segundo uma colisão na Rio-São Paulo ? não seria mais lógico encomendar a missão a um motoqueiro pistoleiro ? E por que a figurinista Zuzú Angel não poderia ter morrido por acidente de automóvel no Túnel Dois Irmãos onde, aliás, são freqüentes os acidentes e capotagens?

Ao invés de ressuscitar fantasmas, os brasileiros precisam enfrentar os desafios do futuro próximo e incerto. Não será olhando pelo retrovisor que vamos pilotar este país com segurança. Até prova em contrário, a lei da anistia (6.683/79) ainda está em vigor e deve valer para ambos os lados. A especulação torpe e vazia com que se tenta incriminar os militares, deveria ser contrabalançada pela saudade dos que tombaram vitimados pelo fanatismo dos inconformados. Que a lembrança de Matheus Levino dos Santos, Mario Kozel Filho, Henning Albert Boilesen, Marcio Leite Toledo, Edson Regis de Carvalho, Nelson Passos Fernandes, entre outros, sirva para amenizar o revanchismo. Esse país está torturado pela insegurança pública, será que vamos colocar mais fermento nesse caldeirão?