O gemido da classe média

Gilberto Ramos - economista, foi Vice-Prefeito do Rio

A revolução castrista foi muito mais uma insurreição da classe média do que uma opção ideológica do povo cubano. Havana era o paraíso caribenho dos milionários americanos que esbanjavam seus preciosos dólares para desfrutarem as praias, cassinos e alguns outros prazeres indeclináveis. A classe média cubana contemplava a imensa injustiça social, fruto da cada vez mais odiosa concentração de renda. Os camponeses plantadores de cana recebiam uma ninharia e os usineiros cubanos ganhavam fábulas exportando açúcar a preço barato para os EUA..

Depois de Sierra Maestra, aproveitando-se da bipolaridade ideológica fermentada pela guerra fria, Fidel direcionou as exportações para a Cortina de Ferro. Os russos pagavam três vezes mais caro pelo açúcar cubano do que os preços internacionais. Era uma forma camuflada de subsidiar a subserviente ditadura pró-soviética, utilíssima para um eventual confronto com os EUA em face da proximidade geográfica.

Já antes, os milionários cubanos, com o cheiro de pólvora no ar, aproveitando a morosidade e com o beneplácito do ditador Fulgêncio Batista, se apressaram em transferir seus capitais, preferencialmente para os EUA, outros para a Suiça. Contribuíram para o êxito da revolução cubana a miserabilidade das classes pobres e a desesperança da classe média que, nem de longe, imaginava a camisa de força que estava vestindo e que usaria nos 50 anos seguintes.

O estresse é o traço comum da classe média em qualquer lugar do mundo, imprensada entre dois mundos contrastantes: a riqueza desejável e a pobreza assustadora. Este contraste faz com que ela tenha que apelar para o estado, uma invenção híbrida dos homens para, exatamente, garantir um bom convívio entre eles.

As ditaduras, sejam elas de direita ou de esquerda, vivem do autoritarismo e da prerrogativa de confiscar recursos, ou dos milionários ou dos pobres fronteiriços da miséria.. A mensagem persuasiva é enternecedora: tirar dos ricos e dar aos pobres. Este discurso distributivista cria um sentimento que eu chamaria de riqueza culpada e pobreza vitimada. Segue-se a dialética explicitando que os ricos só são ricos pelo consentimento dos pobres. Daí para a luta de classes é um pulo.

Oitenta anos se passaram desde que o socialismo soviético, a ferro e fogo, varreu o mundo e remexeu a alma humana com sua mensagem humanitária, porém ilusória. As benditas intenções da esquerda, debatendo-se com o assembleísmo que caracteriza a vagarosa gestão burocrática do estado, está cedendo lugar à uma apressada população que exige respostas mais rápidas para suas demandas. Mas cuidado, não percamos de vista o estado direito e coloquemos a democracia no altar. Só ela é capaz de fazer com que a autoridade das leis prevaleça sobre a lei das autoridades.

A classe média brasileira está gemendo. Talvez seja essa a tal da voz rouca das ruas de que nos fala FHC. Recompor o estado brasileiro, resgatando seu papel de garantidor de direitos, e não como fonte de privilégios, é o maior desafio da política brasileira - a boa política. Com tributação extorsiva, insegurança em todos os níveis, corrupção endêmica e a tempestade de notícias ruins que a mídia se apresta em divulgar, fica difícil imaginar que a classe média brasileira esteja feliz. As urnas dirão melhor.