Governo e Banco não combinam

Gilberto Ramos - economista, foi Vice-Prefeito do Rio.

Dinheiro na mão do governo é garantia de desperdício e os exemplos são variados. Atividades que rendem uma fortuna em mãos privadas, dão um baita prejuízo quando são administradas pelo governo. Em outras palavras: ao invés de gerarem impostos, consomem impostos. Após privatizadas, muitas empresas estatais, cronicamente deficitárias, passaram a dar lucro. O curioso é que o governo continua como sócio oculto, pois a perversa tributação de 34%, uma das mais altas do mundo, faz com que os governos sejam beneficiários do lucro, sem correrem qualquer risco. Um bom exemplo aconteceu com a CSN: esta empresa, que vivia no cangote do governo, saiu do vermelho e vai de vento em popa.

Tenho defendido a tese de que a prioridade das privatizações deveria recair sobre o crédito. Banqueiro não é atividade apropriada para a burocracia política. Os regimes mais tirânicos podem nos obrigar a plantar, fabricar, distribuir, enfim, a quase todas as atividades econômicas. Entretanto, o que governo nenhum (comunista ou capitalista) conseguiu até hoje, foi nos forçar a negociar. E banco é, por excelência, uma atividade negocial, portanto, vocacionada para a iniciativa privada. Se o crédito fosse privatizado, as empresas estatais deficitárias quebrariam por falta de quem lhes socorresse. E que mal há nisso ? É a regra do jogo. O que não podemos é continuar financiando os privilégios que se estabeleceram nas empresas estatais, inclusive o escândalo da formação de seus fundos de pensão.

Ainda agora fiquei estarrecido com a notícia de que a Caixa vai fechar o balanço no vermelho. Segundo seu presidente, Emílio Carazzai, os resultados do segundo semestre da Caixa, quando muito, empatam receita e despesa. Quer dizer, foram insuficientes para cobrir o prejuízo de R$ 4 bi do primeiro semestre. Que barbaridade ! Segundo Carazzai, o ajuste patrimonial de junho de 2001 foi um dos fatores que causaram o prejuízo. Essa operação de saneamento gerou um prejuízo de R$ 40 bi, valor estimado para os créditos podres, especialmente da carteira imobiliária. Além de tudo, a Caixa não conseguiu se adaptar às novas regras de aprovisionamento determinadas pelo BC. Em outras palavras: ainda tem passivo a descoberto.

Aí fiquei pensando: se a Caixa paga a mesma taxa de remuneração nas cadernetas de poupança de seus clientes em comparação ao Bradesco e Itaú, como é que estes bancos dão um mega lucro e a Caixa fica na bancarrota. Será que os juros do cheque especial da Caixa são infinitamente menores do que os de seus concorrentes ? Ou será que ela empresta mal e cobra pior ainda ? Ou as duas coisas ? Acho que vou correndo abrir uma conta na Caixa. Afinal sua propaganda diz: "vem pra Caixa você também" ? E o Brasil que se dane.