Há algo de podre no Reino de Pindorama

Mirson Murad Jornalista.

Os escândalos se sucedem no Congresso. São tantos que quando a mídia anuncia que tem novidade por lá, o povo já sabe. Uma nova falcatrua foi descoberta, cada uma mais escabrosa que a anterior. Nosso Senado, com 80 senadores aproximadamente, tem quase 200 diretores. A Companhia Vale do Rio Doce, uma das maiores empresas mineradoras do mundo, com negócios em todos os recantos do planeta, um grupo empresarial da mais alta complexidade, tem apenas quatro ou cinco diretores. E para quê tudo isso? Para quê o Brasil precisa de Senado? Quem manda no Senado? Quem está dando as cartas lá e em todas as esferas governamentais? Vimos pela TV o jogo armado, com cartas viciadas, como foi feita a composição da mesa diretora. Na presidência elevaram José de Ribamar (que adotou o sobrenome de Sarney por dar mais status no Maranhão, um dos estados mais miseráveis do Brasil onde falta tudo até vergonha na cara daqueles que podem, mas não fazem nada para melhorar o status quo do seu povo. Só querem se locupletar). Sarney foi o presidente da República que arrumou com os deputados o voto para aumentar sua permanência como chefe supremo do país. Lembre-se, caro leitor, o falecido deputado Roberto Cardoso Alves, que, após trocar seu voto por um ministério, justificou afirmando: "É dando que se recebe", plagiando S. Francisco de Assis. Na diretoria está dando as cartas, poderosamente, Renan Calheiros, que trouxe seu antigo chefe Fernando Collor de Mello, aquele que chamou Sarney de ladrão durante sua campanha para presidente da República. Ele, por sua vez cedeu um cargo diretor para o mensaleiro Eduardo Azeredo. Os estudantes caras-pintadas estão fazendo falta. É preciso que o povo se mobilize para acabar com isso. Imunidade parlamentar só deveria existir para atos de opinião política, não para crimes comuns. Um detalhe: o leitor amigo já reparou na coincidência incrível que vem ocorrendo há vários governos? Quando elegemos um novo presidente da República, não importa de qual partido nem sua ideologia política o programa de governo do eleito e do seu partido político é, basicamente, igual aos princípios ideológicos e governamentais do PMDB? É por isso que o partido maior brasileiro faz acordo e, aliando-se ao governo constituído, dá sustentação de governabilidade ao mesmo. Não é isso que diz sempre seu presidente Michel Temer? Uma montanha de cargos públicos, ministérios estratégicos e outras coisinhas mais são espontaneidades do presidente, e nunca exigência do PMDB.

É como bem disseram Cleide Canton e Rui Barbosa: "Sinto vergonha de mim, por ter sido educador de parte desse povo. Por ter trabalhado sempre pela justiça. Por compactuar com a honestidade, por teimar pela verdade e por ver esse povo já chamado varonil enveredar pelo caminho da desonra. Sinto vergonha de mim, por ter feito parte de uma era que lutou pela democracia, pela liberdade de ser e ter e entregar aos meus filhos simples e abominavelmente a derrota das virtudes pelos vícios, a ausência da sensatez no julgamento da verdade, a negligência com a família, célula mater da sociedade, a demasiada preocupação com o eu que visa a qualquer custo buscando a tal felicidade em caminhos eivados de desrespeito para com o próximo. Tenho vergonha de mim pela passividade em ouvir sem despejar meu verbo a tantas desculpas, ditadas pelo orgulho e a vaidade, para reconhecer um erro cometido a tantos floreios para justificar atos criminosos, a tanta relutância em esquecer a antiga posição de sempre contestar, voltar atrás e mudar o futuro. É... tenho vergonha de mim que faço parte de um povo que não reconheço, enveredando por caminhos que eu não quero percorrer. Eu tenho vergonha da minha impotência, da minha falta de garra, das minhas desilusões e do meu cansaço. Não tenho para onde ir, pois eu amo esse meu chão, vir e ouvir meu hino e jamais usei a minha bandeira para enxugar meu suor e enrolar meu corpo na pecaminosa manifestação de nacionalidade, ao lado da vergonha de mim. Tenho pena, tanta pena de ti povo brasileiro. De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto".