Informação ou manipulação? 2

Carta ao jornal O Globo - Rio de Janeiro 14 de dezembro de 2002

Como cidadão italiano, felizmente vivendo neste País e nesta cidade, expresso meu "desencanto" com as contínuas e incorretas notícias que o Jornal O Globo divulga sobre a Itália e, sobretudo, sobre o Governo Berlusconi. No último artigo enviado por seu correspondente em Roma, dia dez de dezembro, as falsidades já estão anunciadas no título: "Desencanto com Berlusconi chega ao auge". De fato, a tradicional pesquisa de fim de ano da Sociedade Datamedia Ricerche, efetuada no dia 2 de dezembro, com o método C.A.T.I. (Computer Assisted Telephone Interview), demonstra que: se os italianos tivessem que votar hoje "confirmariam a total confiança na Casa da Liberdade - a coalizão liderada por Berlusconi que governa o País - que conseguiria 51, 2% dos votos", enquanto a oposição chegaria a 33,2. Estes dados significam que, nos últimos seis meses, a coalizão incrementaria os consensos de 0,8% e a oposição passaria de 37,5 a 33,2%, perdendo 4,5%. Isso é que o correspondente do jornal O Globo chama de desencanto?

O segundo ponto se refere ao desemprego: os dados do CENSIS, a entidade que mede periódica e estatisticamente o desenvolvimento do País, acabam de afirmar que, no último ano, a Itália registrou o maior incremento de emprego dos últimos seis anos: foram criados 470 mil novos empregos. Quanto ao que se refere ao problema FIAT, a Casa automobilística queria mesmo demitir 5.000 funcionários. O governo, que participa das negociações entre sociedade e sindicatos como parte neutra, conseguiu que a FIAT voltasse atrás, mantivesse abertas as fábricas e que os funcionários que seriam demitidos pudessem entrar na, assim dita, Caixa de integração em rodízio, o instituto de amortização social da Itália. Os sindicatos não aceitaram e a FIAT mandou 5.000 operários para usufruir dos benefícios da Caixa de Integração. Berlusconi criticou o management da Casa automobilística, levantando as críticas da oposição. Mas de quem é a culpa da fraca atuação da FIAT na Europa? Do governo? Dos sindicatos? Ou é de quem não soube prever e interpretar as tendências do mercado. O governo continua operando para que o acordo entre as partes seja selado. Entretanto o governo garantiu que, se parte dos operários quisessem mudar de emprego, organizaria cursos profissionais para qualificá-los em outros setores, inclusive na enfermagem: parece coisa tão absurda?

Terceiro, no contrato com os italianos, a ser realizado ao longo da atual e a próxima legislação,  Berlusconi prometeu diminuir os impostos e assim está sendo feito: esta importante inovação está contida na nova Legge Finanziaria que será aprovada até o fim deste ano. A lei, sob decreto nº 2144 A, prevê a "Delega ao Governo para a nova Lei Fiscal Nacional", que concederá um desconto das alíquotas de 23 até 33%. Isto é falta de palavra?

Outro item, o das grandes obras: a Itália está se transformando em um grande canteiro de obras do norte ao sul do país. Depois de décadas de paralisação, em fim, as grandes infraestruturas tão necessárias ao harmônico crescimento da nação, entre essas o projeto da ponte de Messina unindo a Sicília ao continente, poderão começar a concretizar-se. Obras paradas há mais de trinta anos estão sendo reativadas permitindo um grande desenvolvimento econômico nas áreas interessadas.

Enfim, o assunto dos aposentados: Berlusconi (está definido no "Contrato com os Italianos" que, provavelmente, o correspondente do jornal O Globo em Roma não leu) prometeu que beneficiaria os aposentados acima de 70 anos que não tivessem outras fontes de renda e cuja aposentadoria estivesse abaixo de um milhão de liras, pouco mais de 500 euros. Esta promessa foi mantida e mais de 1.200.000 aposentados estão se beneficiando da medida. Além disso, a mesma, provavelmente, poderá interessar os italianos que vivem no exterior.

Última pergunta: por que o jornal não noticiou que, no dia 6 deste mês, a Corte Européia de Justiça deu causa ganha a Bettino Craxi, o premier italiano que faleceu exilado em Tunísia, por ter a justiça italiana, (através de alguns magistrados - um deles foi recentemente condenado por corrupção - da assim dita Operação Mãos Limpas), praticado um processo injusto ignorando os direitos da defesa? Agora eu me pergunto: como é possível que um jornalista pago para viver em Roma, a cidade da dolce vita, possa enviar suas correspondências pescando as informações, apenas, nos jornais da oposição ao governo Berlusconi? 

Edoardo Pacelli, jornalista.

P.S.: Nós italianos e descendentes que vivemos no Rio e no Brasil, merecemos este tratamento por parte do maior jornal da cidade? e continuamos assinando-o? Por que não investimos com milhares de cartas a sua redação? O governo italiano é parceiro, necessário e importante, do Brasil para as relações com a União Européia e os italianos representam o núcleo maior de turistas não sul-americanos que visitam a nossa cidade..

Veja carta análoga enviada ao mesmo jornal depois das eleições ganhas pelo presidente Berlusconi.