João Paulo II: Compreender plenamente o valor e o significado do mistério do Natal

(©L'Osservatore Romano - 21 de Dezembro de 2002)

O Santo Padre, Papa João Paulo II1. Neste tempo de Advento acompanha-nos o convite do profeta Isaías: "Dizei aos que têm o coração pusilânime: "Tomai ânimo, não temais... o nosso Deus... vem em pessoa salvar-nos"" (Is 35, 4). Ele torna-se mais envolvente com a aproximação do Natal, enriquecendo-se com a exortação a preparar o coração para o acolhimento do Messias. Aquele que o povo espera virá certamente e a sua salvação será para todos os homens. Na Noite Santa recordaremos o seu nascimento em Belém, reviveremos de certa forma as emoções dos pastores, a sua alegria e admiração. Contemplaremos com Maria e José a glória do Verbo que se fez homem para a nossa redenção. Rezaremos para que todos os homens acolham a vida nova que o Filho de Deus trouxe ao mundo assumindo a nossa condição humana.
2. A liturgia do Advento, repleta de evocações constantes da expectativa jubilosa do Messias, ajuda-nos a compreender plenamente o valor e o significado do mistério do Natal. Não se trata de comemorar apenas o acontecimento histórico, que se verificou há mais de dois mil anos numa pequena aldeia da Judeia. Ao contrário, é preciso compreender que toda a nossa vida deve ser um "advento", uma expectativa vigilante da vinda definitiva de Cristo. Para predispor o nosso coração para receber o Senhor que, como dizemos no Credo, virá um dia para julgar os vivos e os mortos, devemos aprender a reconhecê-lo, Ele que está presente nos acontecimentos da existência quotidiana. Então o Advento é, por assim dizer, um treino intenso que nos orienta decisivamente para Aquele que já veio, que virá e que vem continuamente.
3. Com estes sentimentos a Igreja prepara-se para contemplar extasiada, daqui a uma semana, o mistério da Encarnação. O Evangelho narra a concepção e o nascimento de Jesus, e conta as numerosas circunstâncias providenciais que precederam e rodearam um acontecimento tão prodigioso: o anúncio do Anjo a Maria, o nascimento do Baptista, o coro dos anjos em Belém, a vinda dos Reis Magos do Oriente, as visões de São José. Todos eles são sinais e testemunhos que realçam a divindade deste Menino. Nasce em Belém o Emanuel, o Deus connosco. A Igreja oferece-nos, na liturgia destes dias, três "guias" particulares, que nos indicam as atitudes que devemos assumir para ir ao encontro deste "hóspede" divino da humanidade.
4. Antes de mais, Isaías, o profeta do conforto e da esperança. Ele proclama um verdadeiro e próprio evangelho para o povo de Israel, escravo na Babilónia, e exorta a estar vigilantes na oração, para reconhecer "os sinais" da vinda do Messias. Há, depois, João Baptista, precursor do Messias, que se apresenta como "voz de alguém que grita no deserto", pregando "um baptismo de conversão para o perdão dos pecados" (cf. Mc 1, 4). É a única condição para reconhecer o Messias que já está presente no mundo. E por fim, Maria, que, nesta novena de preparação para o Natal, nos guia rumo a Belém. Maria é a Mulher do "sim" que, ao contrário de Eva, assume sem hesitar o projecto de Deus. Torna-se assim uma luz clara para os nossos passos e o modelo mais nobre no qual nos inspirarmos. Caríssimos Irmãos e Irmãs, deixemo-nos acompanhar pela Virgem até ao Senhor que vem, permanecendo "vigilantes na oração e exultantes no louvor". Desejo a todos uma boa preparação para as próximas festas do Natal.