Liaisons dangereuses: Saddam e Chirac

Casamento com comunião de bensOs casamentos de interesses são aqueles que dificilmente acabam. É o caso do casamento entre a França e o Iraque, que oficializaram o noivado no dia 15 de junho de 1972, quando em Paris fez a sua estréia Saddam Hussein, na época com 35 anos, homem forte do Iraque, governado, então, pelo parente dele, Hassan el-Bakra. Seu primeiro encontro aconteceu com o presidente Georges Pompidou, ao qual o rais de Bagdá prometeu de ter escolhido a França como parceira e, como presente de noivado, garante que as companhias petrolíferas francesas não serão atingidas pela nacionalização dos poços de petróleo iraquianos que tinha sido decretada quinze dias antes. Desde então começou uma série de fornecimentos de materiais militares que durou até a segunda guerra do Golfo. Com o primeiro contrato Paris forneceu, em 1973, radares, helicópteros e tanques (pagados à vista). O segundo acordo foi assinado em setembro de 1974, com uma pequena, mas significativa mudança: quem assina agora pela França é Jacques Chirac e se trata, desta vez, da construção de um reator nuclear. É o atual Presidente francês o novo noivo do vice-premier e responsável dos serviços secretos iraquianos, Saddam Hussein. Entretanto o francês Valéry Giscard d’Estaing foi eleito presidente da república francesa. Um ano depois, em 1975, Saddam chegou na França para concordar os últimos detalhes sobre seu programa nuclear. Oficialmente tratava-se de um programa civil, na realidade numa entrevista para o semanal libanês al-Usbua al-Arabyy, Saddam admitiu que, atrás do acordo com os franceses, se escondia o primeiro passo concreto para a construção da primeira bomba atômica árabe. Chirac e Saddam continuaram flertando como pombinhos, freqüentando-se também privadamente, como em janeiro de 1976, quando Chirac levou para Bagdá seu sucessor, Raymond Barre, com as esposas, para um jantar com o rais. Quem reconstruiu as principais etapas dos acontecimentos foram os jornalistas Dominique Lagarde e Alain Louyot para o semanal “L’Express”, em 13 de fevereiro de 2003. Os dois, porém, esqueceram de descrever uma etapa importante desta história, precisamente o que aconteceu no dia 6 de abril de 1979, na cidade de La Seyne-sur-Mer, próxima de Toulon, no sul este da França. Neste dia um grupo, que se auto-apelou de ecologista, detonou o galpão nº 3 das Construções navais e industriais do Mediterrâneo. Atrás da fachada ecologista se esconde, porém, o Mossad (o serviço secreto israelenses) que, depois de acionar cinco cargas de explosivo, ligou para a polícia se acusando autor do atentado, em nome de um grupo ambientalista denominado “A gente mais pacífica e inerme da terra”. Neste edifício, vigiado por guardas armadas, um consórcio de firmas francesas estava construindo os “cernes” de dois reatores nucleares iraquianos. A operação, codinome “Sphinx”, não conseguiu parar a entrega, apesar ter danificado seriamente os equipamentos e atrasado de pelo menos de seis meses o programa nuclear iraquiano. Foi consertado o possível, mas um exame aos raios X revelou fraturas irremediáveis: foi preciso reconstruir tudo do início. Para o Iraque não importava, precisava-se de rapidez e o material foi aceito assim como estava e a carga partiu rumo Bagdá. Entretanto o Iraque, dia 22 de setembro de 1980, invadiu a fronteira do Irã e ao longo de oito anos Paris concluiu grandes negócios entregando aviões Mirage, em acordo a contrato assinado pelo vice-premier iraquiano, Tarek Aziz e Giscard d’Estaing. O Irã, que tinha ordenado e pagado três navios lança-mísseis aos tempos de Reza Pahlevi, não conseguiu tomar posse. Como conseqüência, o Iraque tornou-se o segundo fornecedor petrolífero da França. A eleição, em maio de 1981, de François Mitterrand, (socialista e considerado amigo de Israel), parece assombrar um pouco o idílio entre os dois paises. Mas o presidente egípcio, Anouar el-Sadat, agiu de apaziguador e o “casal” reforça seus laços. De repente, no dia 7 de junho de 1981, às 18.35, oito caças israelenses F-16 apareceram ao oeste e, num minuto e meio, lançaram 13 bombas sobre o reator de Osiraq em al-Tuwaitha, destruindo equipamentos, reator e os “cernes” de fabricação francesa. Graças a esta intervenção, codinome Babylon, Saddam Hussein não pôde ameaçar ninguém com a bomba atômica. Esse golpe acabou com as veleidades nucleares iraquianas. Saddam não conseguiu consertar os danos, apesar da ajuda financeira saudita e de novo acordo com Mitterrand. O embargo às exportações e as preocupações da comunidade internacional sobre a evidente vontade de Saddam de desenvolver armas nucleares fizeram fracassar as ambições iraquianas. A França insistiu em vender novo reator, equipado de sistema de rastreamento capaz de detectar a extração de material físsil do “cerne”, mas ninguém confiou mais nas garantias franceses. Após trinta anos as liaisons dangereuses ficaram como no início. Um perigo universal.