Lula pisoteia nobres ideais, mas quem vai ligar?

José Nêumanne, jornalista e escritor, é editorialista do Jornal da Tarde

Filho de dona Lindu nada de braçadas num mundo em que só o interesse conta. Em Roma, poucos dias antes da contestada decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de autorizar a extradição do sicário Cesare Battisti para sua Itália de origem, mas deixar a palavra final para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, este ouviu do principal líder da oposição de esquerda daquele país, Massimo d’Alema, a afirmação de que o criminoso teve amplo direito de defesa e foi condenado conforme os ritos do Estado Democrático de Direito. Respondeu-lhe que aquele era um assunto do Judiciário, e não do Executivo. Ele não deve ter contado essa conversa a seu ministro da Justiça. Pois Tarso Genro atribuiu, em declaração pública, a pressão da Itália pela devolução do condenado para lá cumprir pena perpétua ao ressurgimento do fascismo naquele país amigo. Não há também nenhuma evidência de que Lula tenha dado satisfações ao interlocutor italiano sobre a transferência, posterior a esse encontro, de responsabilidade da decisão da Justiça para ele próprio. D’Alema deve ter acreditado piamente no que ouviu, pois não havia motivo algum para que Lula mentisse E naquele momento ele, de fato, falava a verdade, uma vez que não tinha sido ainda criada a jurisprudência que dá sustentação à versão brasileira da República de poder tripartite, por cinco votos a quatro no STF.

Como o chefe do governo resolveu em reuniões com parlamentares e assessores de confiança que José Sarney ficaria na presidência do Congresso Nacional e a cúpula do Judiciário criou uma situação nova em que decidiu sobre um assunto e depois o submeteu à decisão final dele, criou-se uma situação de fato que modifica na essência a teoria da governança compartilhada. No Brasil há um poder que manda, a vontade do presidente, e três subordinados: o Executivo, que a executa; o Legislativo, que lhe obedece; e o Judiciário, que a autoriza. D’Alema foi informado, mas depois foi ludibriado. E daí? O que estará ao alcance do líder da oposição de esquerda italiana para interferir na decisão a ser tomada por Lula? A Itália poderá reclamar e fazer beicinho, mas dificilmente recorrerá a uma corte internacional de Justiça para discutir o eventual asilo a um criminoso comum que com o aval do Estado brasileiro renega a democracia italiana. Lula conta com isso.

Da mesma forma, comemora, com razão, a notoriedade mundial que conseguiu por ter convidado, reiterado o convite esnobado e recebido o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad. Americanos e europeus não gostaram disso, porque o cidadão em questão é uma ameaça permanente à paz na Terra. Ao desafiar o Primeiro Mundo com seu gesto aparentemente atrevido de apoiar uma política nuclear execrada por metade do planeta, Lulinha Paz e Amor o Cara da Silva obteve uma fama mundial nunca antes alcançada por outro presidente brasileiro na História deste país. E, do ponto de vista pessoal dele, isso foi obtido a custo zero. Barack Obama não vai mandar a 4ª Frota depô-lo por causa disso. Nicolas Sarkozy não suspenderá a venda dos jatos para a Aeronáutica. Angela Merkel não deixará de comprar produtos brasileiros. A pérfida Albion não espalhará pedras pelo caminho de Dilma Rousseff rumo à rampa do Planalto. As relações do Brasil com a Rússia, a China e a Índia não serão afetadas. Nem o serão sequer com Israel, vítima preferencial do persa. O pragmatismo domina cada vez mais as relações internacionais e num mundo assim o presidente brasileiro nada de braçadas. Um dos segredos de polichinelo de sua popularidade em alta depois do vexame do apagão é seu senso pragmático. O líder político capaz de vender à Nação, com a maior desfaçatez do mundo, que o esquema montado para comprar governabilidade no Congresso não passou de uma manifestação golpista da oposição incapaz, que em nada o incomoda, se dá muito bem nesse panorama sem nobres princípios nem moral. Fazendo vista grossa para a truculência do gigantesco parceiro comercial chinês, os Estados Unidos têm pouca autoridade para cobrar do favorito declarado de Obama a postura simpática, esperta e apoiada no enorme desconhecimento de causa do petista quanto ao mandachuva persa. Louca para vender seus jatos e garantir empregos na indústria e votos na urna, a autoridade francesa poderá até usar uma hipócrita retórica (que Lula domina como poucos) para reclamar do apoio ao negador do Holocausto judeu sob os nazistas, mas jamais criará problemas incontornáveis nas relações bilaterais. Os britânicos, alemães, russos e outros europeus também não se animarão a transformar o desconforto com a simpatia do presidente brasileiro por um chefe de governo que financia grupos terroristas em algum incômodo ato concreto relevante.

Como aquela personagem de Chico Anysio na televisão, o governo brasileiro se lixa para os dissidentes da tirania cubana, a paz no Oriente Médio e a Constituição de Honduras, porque, no frigir dos ovos, há poucos parceiros no cenário global interessados nos velhos valores do direito à vida, à saúde e à liberdade. “Sou, mas quem não é?”, dizia o cafajeste no programa humorístico. A República petista-lulista hoje vislumbra o mundo em redor com idêntico pragmatismo. O sucesso de seu chefe tem a mesma raiz da popularidade de Carlos Imperial, criador da “pilantragem”. “Falem de mim, falem mal de mim, mas falem de mim”, proclamava o homem que lançou Tim Maia, Roberto e Erasmo Carlos. Antigo desafeto e aliado de Lula, dependendo da circunstância, Leonel Brizola dizia que ele seria capaz de pisar no pescoço da mãe para subir na vida pública. Com dona Lindu alcançando a condição de Nossa Senhora dos Pobres e Desvalidos do Brasil, graças ao esquema Barretão de construir mitos nas telas, noço guia levita na cena política nacional pisoteando apenas nobres ideais.