Os intocáveis

Prodi peca de arrogância. Sob o governo dele muitos "negócios canalha" - Edoardo Pacelli, Rio de Janeiro, agosto de 2003

Romano Prodi (atual presidente da Comissão Européia) governava o IRI (Instituto de Reconstrução Industrial) nos meados dos anos 80, quando a indústria agro-alimentícia pública arriscou de ser vendida a um preço de afeição a um amigo dele e seu apoiador editorial e político (um business concordado com a Democracia Cristã, no lugar que com a presidência do governo e o ministério da Fazenda, segundo o próprio testemunha do amigo Carlo de Benedetti, que compraria a mesma indústria). Governava a Itália, igualmente, nos meados dos anos 90, quando a Telecom Itália (que, naquela época pertencia ao governo) adquiriu, a um preço exorbitante, 29% das ações da empresa de telecomunicações da Sérbia, tornando o governo italiano tesoureiro de Slobodan Milósevic. Por que Prodi usa tons tão arrogantes quando contrasta os trabalhos da CPI do parlamento italiano que já acertou, tendo o Tribunal das Contas como avalista, a incauta compra? Por que não segue os conselhos de Antonio Di Pietro de não boicotar os trabalhos da Comissão? Por que, apenas agora, pede de ser interrogado? Por que não defende sua respeitabilidade, como sugere com o dedo levantado quando é a vez dos seus adversários políticos, no inquérito?

O desprezo com o qual o lider da oposição trata o inquérito do Parlamento italiano, não é justificável. Se é necessário proteger-se do uso "canalha" das CPIs, como escreve a imprensa que apóia o presidente Prodi e faz oposição ao governo Berlusconi, alguém deverá procurar de acertar a verdade sobre os "negócios canalha" e sobre as intermediações não transparentes a menos que não existam castas de intocáveis. O ativismo do Parlamento deve ter uma sua raiz na preguiça da magistratura e na grotesca, mas significativa parábola da mídia amiga de Prodi. É no jornal Repubblica, o maior apoiador da coalizão liderada por Prodi, que aprendemos, após de muitos rumores, a existência da questão Telekom Serbia. Sempre no mesmo jornal, numa reviravolta das mais inquietantes e divertidas na história do jornalismo mundial, assistimos, agora, à curiosa tentativa de esquecer seu scoop, politicamente incorreto. Não resta, ao presidente Prodi, que favorecer o trabalho sério e rápido da CPI, ao invés de boicotá-la.