Os ministros do contra

José Neumanne, jornalista e escritor, é editorialista do Jornal da Tarde.

Para garantir a lealdade de seus ministros, Lula tem de demitir já os que brincam de se opor sem desocupar os gabinetes. Reclama-se muito, nas próprias hostes situacionistas e na oposição, que o PT no governo apenas repete as gestões anteriores. A impressão generalizada é que os tucanos esqueceram seu manual de gerir o Brasil dentro de uma gaveta e, ao ocupar a escrivaninha na qual o volume foi abandonado, o petista ou aliado que assumiu o poder passou a usá-lo sem-cerimônia. De um lado, reclamam os que o esqueceram, como se fossem monopolistas do saber e da experiência de governar, o que é evidentemente uma tolice e, o que é pior, inócua. De outro, queixam-se alguns antigos aliados dos mandachuvas atuais, que continuam sonhando com a perspectiva de "mudar tudo o que está aí", projeto alternativo de tomada do poder que foi abandonado antes da primeira curva da corrida presidencial. A entidade chamada Brasil, contudo, não tem queixas a registrar dessa atitude.

Numa coisa, porém, o governo parece inovar em relação a seus antecessores, não só o de Fernando Henrique, mas todos, desde Deodoro: é no comportamento do primeiro escalão da administração federal. Pois o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi forçado a ampliar o ministério para 37 pastas numa tentativa que parecia exagerada, mas que agora se provou insuficiente, de abrigar nelas as tendências do partido em que milita e os companheiros que não tiveram a mesma sorte que ele nas disputas eleitorais. Habituado a conviver com essas tendências numa vida que dedicou inteiramente ao PT, ele parece não perceber a diferença fundamental entre aquela entidade e a máquina pública. E passou a administrar as dissensões entre seus ministros como se fossem da mesma natureza das registradas no seio do partido. O saco de gatos partidário transferiu-se para o primeiro escalão de tal forma que >começaram a aparecer dissidências dentro dela.

Com 37 membros egressos de tendências diferentes, cada uma delas com as próprias ambições e projetos, era natural que elas surgissem à tona e foi o que ocorreu nestes primeiros nove meses de governo. Na semana passada, assistimos de camarote a vários exemplos desse espetáculo deprimente. Talvez por sentir-se na frigideira, o ministro da Educação, Cristovam Buarque, reclamou da escassez de recursos do setor, social por excelência, e disparou uma crítica dura, inaceitável para um dirigente na sua posição: "O Brasil finge que educa." No dia seguinte, foi além e convocou os universitários a se mobilizarem para exigir mais verbas dos parlamentares que estão debatendo a delicada reforma tributária no Congresso. Como parece não ter conseguido nada do que pretendia, deu uma entrevista, um dia depois, pedindo para ficar. Que papelão de Sua Excelência, hein? O que não se faz por poder? E seu colega Miro Teixeira, ministro das Comunicações, que subiu num caminhão de som de carteiros grevistas, ao lado do deputado Babá, o Pedro de Lara da Câmara, como se fosse um dirigente sindical e não o superior hierárquico dos servidores amotinados?

Também na semana passada, o próprio presidente da República pareceu estar acometido da mesma pane de ausência de seus liderados e, como se não fosse o responsável por tudo o que ocorre na órbita da administração federal, reclamou da composição do Conselho Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico, de cuja solenidade de reinstalação ele era o convidado de honra, reclamando da ausência de mulheres em sua composição e chamando-o de "Clube do Bolinha". Para complicar ainda mais, fez uma queixa pública contra quem luta demais para conseguir um cargo para depois não aplicar nele nem 10% desse empenho, o que foi entendido como uma crítica indireta ao ministro da Ciência e Tecnologia, Roberto Amaral, que não goza da simpatia do chefe, o que não é segredo para ninguém.

ses episódios mostram que há ministros do governo e ministros da oposição e, se quiser que o desempenho de seu governo melhore, Lula não pode mais esperar para substituir estes últimos. Além disso, terá de reduzir com urgência o número de pastas e compreender de uma vez por todas a enorme diferença existente entre ser o mínimo multiplicador comum de uma confederação de tendências, que era sua missão na presidência de honra do PT, e chefiar uma equipe de governo, que deve concentrar seus esforços para enfrentar os enormes desafios de administrar um país do tamanho e com a variedade de problemas e a escassez de recursos para resolvê-los, caso do Brasil.

Se conseguir fazer isso, terá dado um passo muito importante para tentar o seguinte - uma reforma partidária que o livre e a todos os seus sucessores da necessidade de cozer essa sopa implausível com ingredientes tão díspares como o inefável ex-reitor da UnB, o delfim de Chagas Freitas e o factótum de Anthony Garotinho. Aliás, o que fazem Miro e Amaral no governo, se o PDT está na oposição e Garotinho nem mais do PSB é, hein? O que falta para Lula despachá-los?