Parabéns para a PM

Gilberto Caruso Ramos - economista, foi Vice-Prefeito do Rio

A imprensa noticiou fartamente os episódios da greve da PM em Salvador, cenas explícitas de saques e vandalismo. Simultaneamente, outras manifestações de insurreição policial eclodiram em Pernambuco e Alagoas. O Rio não ficou de fora desta nossa guerra interna. Os moradores do Morro da Providência interromperam o tráfego, queimaram vários ônibus e saquearam um caminhão. Ato seguinte forneceram à televisão fitas com o suborno de policiais. Nos últimos 10 dias, 29 policiais foram presos por envolvimento em vários crimes, de extorsão a assassinatos.

Tenho a melhor das impressões do Cel. Wilton Ribeiro, atual comandante geral da PM e, certamente, os escândalos envolvendo seus companheiros de farda não ficarão impunes. Embora fiquemos chocados, a punição dos criminosos fardados mostra que o corporativismo não triunfará sobre a dignidade desta corporação bicentenária. Esses policiais delinqüentes deveriam estar com um baita remorso de se aliarem justamente com os assassinos de seus 73 companheiros de farda.

A PM está comemorando seu 192º aniversário e pouco se diz dos serviços maravilhosos que esta instituição tem prestado ao povo fluminense. Nos últimos 12 meses, 73 policiais foram mortos em combates heróicos contra os marginais do Rio. Sem contar os que ficaram mutilados. Mas, como disse um amigo, a notícia que vende é a da queda do avião e não a aterragem difícil e bem sucedida. Acho que ele tem razão: felicidade não vende jornal.

O que ninguém diz é que a segurança pública está sendo privatizada por conta do descaso governamental com o sistema policial. Isso já vem de longe e não cabe culpar o atual governo que, a bem da verdade, tem investido bastante nesta área. Atualmente, há 165.000 pessoas trabalhando em segurança privada no Rio, sendo 55.000 cadastradas em empresas formais e outras 110.000 em firmas clandestinas. Enquanto isso, o efetivo policial estatal é de 42.000 homens, sendo 33.000 PMs e 9.000 policiais civis. Ou seja, aproximadamente ¼ do efetivo privado.

Para compreendermos as distorções que provocaram esse apocalipse policial é bom examinarmos a remuneração dos PMs. Quando exerci a Sec. Municipal de Administração do Rio fiquei impressionado com a quantidade de PMs que faziam concurso para a guarda municipal. Era a busca por um salário só um pouquinho melhor. Hoje o quadro está ainda pior. Um cabo PM recebe R$ 550,00 mensais, e um soldado, aproximadamente, R$ 440,00. Isso para uma jornada de 24 por 48. Durante as folgas esses PMs fazem biscate como segurança de hotéis, postos de gasolina, etc. e ganham um plus de R$ 1.000,00/ mensais. Conclusão: o "bico" é mesmo a PM e a segurança está com sinais trocados.

Mas a Polícia Militar precisa ser prestigiada não só salarialmente, mas, também, pela sociedade, pelos governos, e, sobretudo pela mídia. Não é possível que as televisões só mostrem a polícia reagindo e se esqueçam das agressões que ela sofrera pouco antes. Durante anos o efetivo da PM ficou estagnado e, agora, está sendo aumentado de 27.000 para 33.000 homens. Além da despesa que isso representa, é bom contabilizarmos o longo treinamento a que um soldado precisa ser submetido. Até fazer parto eles aprendem. Remunerar bem e prestigiar a polícia é, além de sinal de inteligência da sociedade, a compreensão de que a ordem é fundamental para que cada um garanta sua liberdade.