Pensar globalmente, agir localmente

Memória de Bruno Saturnino Braga* 

Bruno Saturnino Braga (Subsecretário de Estado de Desenvolvimento Econômico e Turismo)À sombra do debate político travado entre o neoliberalismo e a nova esquerda, do qual desponta a vertente ainda pouco nítida da chamada terceira via, um outro movimento político vem se afirmando, uma quarta via, digamos assim. Esta, bem menos comentada na imprensa e nos meios intelectuais, pode ser resumida em uma frase já bem conhecida, mas cujos desdobramentos são ainda obscuros para o grande público. Pensar globalmente, agir localmente. Ou seja, a partir de uma percepção por inteiro, global, holística, desenvolver projetos e ações de âmbito local, pontualmente, caso a caso, e interligar essas diversas experiências pontuais por meio de redes de parcerias e comunicações, visando seu aperfeiçoamento e multiplicação. Tomando emprestado uma expressão muito em voga, trata-se do networking de ações locais, integrantes de uma totalidade orgânica. Um exemplo conhecido de sucesso de políticas de desenvolvimento local encontra-se na Itália, onde os distritos industriais são um dos pilares do desenvolvimento econômico e social de vastas regiões do interior daquele país. Esses distritos não são apenas redes de parcerias entre empresas, pois incluem uma forte componente de parceria entre pessoas e instituições, o que os coloca como exemplos de integração de um todo orgânico. Não são apenas exemplos de sucesso econômico, mas também de êxito na organização social, comunitária e institucional. As redes de parcerias dos distritos industriais italianos nos mostram como é possível encontrar um equilíbrio harmônico entre a competição, necessária para a contínua elevação da produtividade e para o surgimento de projetos inovadores, e a cooperação, indispensável para a preservação da estabilidade institucional, da solidariedade e dos valores do humanismo. Num contexto ideal, talvez ainda inexistente no mundo real, a predominância do humanismo significa a predominância da visão holística, onde o que importa é a valorização do ser humano e a elevação de sua auto-estima, através do desenvolvimento de potencialidades, do exercício ativo da cidadania, do planejamento participativo, por exemplo. E por que agir localmente? Porque é localmente que as pessoas se conhecem, se encontram, debatem, participam, se tornam parceiros solidários, desenvolvem suas aptidões e dons individuais e comunitários, encontram espaço para o florescimento de sua arte e cultura, de suas emoções e sentimentos. Pensar globalmente, agir localmente é um trabalho de formiguinha, de convencimento, de articulação, onde cada iniciativa pontual depende de muito empenho e afinco das pessoas e entidades envolvidas. Serão necessários muitos anos e mesmo décadas até que a multiplicação de iniciativas isoladas e interligadas produza a massa crítica suficiente para promover a transformação social em larga escala. É também um trabalho político, não partidário, mas político, pois há que construir parcerias, firmar um pacto de transformação social, onde todos os atores são co-autores de uma nova ordem. O processo é lento, e utópico. É preciso partir para a ação concreta, mas acreditando na utopia transformadora. Esse é o papel dos líderes: mostrar que a utopia pode ser alcançada, e mobilizar os agentes multiplicadores. Nesse novo paradigma, os governos assumem o papel de facilitadores, ou articuladores, atuando no sentido da organização e sistematização das potencialidades locais, visando a alavancagem de investimentos, a abertura de canais de comunicação com a sociedade e a formação e fortalecimento político das parcerias necessárias para realização de projetos estruturantes, programas sociais e multiplicação de empreendimentos econômicos. Tudo dentro de um contexto de radicalização da democracia, isto é, de participação política contínua e perene da sociedade organizada nas decisões e rumos de governo e das ações da iniciativa privada. Uma experiência pioneira neste campo foi desenvolvida durante a gestão do Prefeito Saturnino Braga, na cidade do Rio de Janeiro, no final dos anos 80, experiência da qual tive a honra de participar. Naquela época, criamos e implantamos os Conselhos Governo-Comunidade em todas as Regiões Administrativas do Rio. O propósito dos conselhos era menos ambicioso do que o que aqui se propõe, mas nem por isso menos importante. Era uma iniciativa pioneira, cujo objetivo era reunir regularmente os representantes locais do governo municipal , das comunidades organizadas e de outras organizações da sociedade civil, bem como os vereadores que quisessem participar – e poucos quiseram!-, e das empresas e outros representantes da iniciativa privada e do mercado, de forma a estabelecer canais de comunicação entre governo, comunidade, empresas e estimular a organização e a participação política da sociedade e traçar rumos e projetos de desenvolvimento. Entendíamos que esse era o ponto de partida para a construção de um modelo de democracia participativa onde a participação da sociedade não se resumisse ao ato de votar nas eleições, mas incluísse uma atividade permanente, institucionalizada, que garantisse à população organizada os meios para exercer seu direito de fiscalizar os atos do governo e participar da discussão sobre prioridades em investimentos, linhas de ação do governo, etc. Era a época de ouro das Associações de Moradores, a FAMERJ – a Federação das Associações de Moradores do Estado do Rio de Janeiro era uma organização atuante e batalhadora, a sociedade organizada estava ávida por participar mais ativamente do processo político, e assim encontramos solo fértil para o desenvolvimento da semente que plantamos. Infelizmente a estrutura dos Conselhos Governo Comunidade foi desmantelada pelo Prefeito seguinte, pois obviamente um tal avanço democrático não interessava aos políticos comprometidos com as velhas práticas do fisiologismo e do apadrinhamento, incompatíveis com a ótica dos Conselhos. Aqui, obras, investimentos, melhores serviços, são conquistas da comunidade organizada. Lá, são favores políticos, cuja fatura será cobrada em votos. Mas os Conselhos Governo-Comunidade deram frutos. Sobrevivem até hoje os Conselhos Escolas-Comunidade, voltados para a fiscalização e discussão sobre a utilização das verbas colocadas à disposição das direções das escolas municipais para aquisição de merenda e material de custeio. Em algumas áreas da cidade existem conselho de saúde, com o mesmo espírito e propósito: reunir representantes da sociedade organizada e do governo. Um outro fruto do trabalho de fomento à participação democrática encontra-se em um projeto que governos posteriores chamaram para si e alardeiam com feito seu, sob o nome de Favela-Bairro. Esse projeto na verdade foi concebido na gestão do Prefeito Saturnino Braga, amplamente discutido com as representações das comunidades. Os primeiros contatos com os organismos financiadores internacionais foram feitos e os primeiros planos foram apresentados naquela época, sob a égide dos Conselhos Governo-Comunidade. Da mesma forma, se o Rio tem hoje o Pólo de Cine-Vídeo, o Teleporto e um excepcional segmento de empresas de software, estas conquistas foram frutos da visão de longo prazo da equipe do então Prefeito e de exaustivos trabalhos de articulação política e discussões democráticas com representantes do governo e destes setores naquela época. Não foram decisões unilaterais de governos inacessíveis aos interesses de representantes empresariais, como muitas que se tomaram mais tarde, mas sim fruto do debate político e democrático entre essas representações e as equipes dos governamentais. Apesar do fim dos Conselhos e do desprezo pela participação institucionalizada que se instalou nos governos subseqüentes, que passaram a adotar uma postura tecnocrática, desdenhosa da consulta popular e da participação política da sociedade organizada, a idéia não morreu. Continuamos acreditando na concretização da utopia transformadora. 

* Ex - Sub-Secretário de Estado de Desenvolvimento Econômico e Turismo.