Pobreza e retórica

Artigo de Cleber Benvegnú

Da internetHá duas maneiras igualmente equivocadas de tratar a questão de pobreza. Entretanto, ambas preponderam no cenário brasileiro, típico sintoma da estagnação cultural que nos assola.

De um lado, há uma esquerda demagógica e fanfarrona que faz uso meramente eleitoreiro dos pobres e da pobreza. Na perspectiva marxista da luta de classes, voltam suas preocupações exclusivamente para o andar de cima da pirâmide social. Desconhecem, ou fingem desconhecer, que a evolução econômica e social de outros países aconteceu sem que os mais abastados precisassem necessariamente ruir. A pobreza acabou através do desenvolvimento e da geração de emprego e renda.

É, no fundo, uma ciumeira danada e um preconceito neurótico contra quem se deu bem na vida. Passam a idéia preconceituosa de que, por trás do sucesso empresarial, sempre está a venda da alma ao diabo e a exploração de trabalhadores indefesos. Com grande força nas hostes acadêmicas e em setores da Igreja Católica, esse pensamento poetiza a miséria, mas nada faz de efetivo para combatê-la. São campeões do verbo, mas normalmente não movem uma palha sequer, objetivamente, em favor do próximo. Gostam mesmo é de levar a massa de manobra, composta especialmente por mulheres e crianças, de um lado para o outro - através do dinheiro que suas ONG’s conseguem do erário -, em mobilizações pretensamente populares. Tratam os pobres como ferramenta necessária para a obtenção e a manutenção do poder.

Por outro lado, há uma direita cínica, mofada e dinheirista que, ao invés de combater a pobreza, lança olhares preconceituosos contra a pessoa pobre. Encastelada em condomínios fechados, salões refinados e clínicas estéticas, essa gente perdeu completamente a conexão com o mundo real. Tornou-se insensível. Não se deixa mais tocar por quem passa fome ou sofre com o desemprego. São pessoas que perderam qualquer noção de humanidade e que jamais prestarão auxílio a um necessitado, mesmo tendo condições para isso. Ao contrário: querem distância de tudo o que não seja fashion e glamourizado.

Enquanto uma parte da esquerda fatura em sua demagogia e uma parte da direita refestela-se em seu mundo encantado, homens e mulheres – seres humanos! – continuam empurrando carrinho no lugar de animais, crianças continuam na silaneira pedindo esmola e jovens humildes continuam com escassas possibilidades em relação ao futuro. Uma considerável parcela da nossa elite econômica, política e cultural, que forma opinião e influencia os rumos do país, prefere continuar vendo tudo de um outro jeito, com sofismas e bloqueios. A quem nos resta recorrer?