Quando os burros escrevem a história

Edoardo Pacelli

Condenado a morte o pai do socialismo reformista e da terça via.

"Um delito perfeito, mesmo que se tente apagar os vestígios com lágrimas de crocodilo. Mataram-no" gritou Stefania, a filha. Tunis, 19 de janeiro de 2000.

A Itália, pátria do direito e do buonismo - ou seja que quer dar sempre uma solução sentimental aos vários acontecimentos - a Itália que se aventura em missões humanitárias, aquela que concede a liberdade aos assassinos – pois os juízes de Milão, para caçar os inimigos políticos, deixaram vencer os prazos dos processos e, assim, 20 perigosos criminosos já condenados à prisão perpétua puderam, na semana passada, ser soltos – essa mesma Itália pós-comunista, negou ao inimigo número um dos marxistas, Bettino Craxi, de poder-se curar em maneira própria e decente. Para ele não foi encontrado um juiz sequer que lhe abrisse as portas de um hospital. O seu carrasco principal, hoje expoente notável do Asinello ( Di Pietro, cujo partido tem como símbolo um Burrinho), afirmou, ainda há pouco, que a doença do ex-primeiro ministro, nada era senão um gigantesco furúnculo, um foruncolone.

Que a perseguição judiciária a Craxi (e a Berlusconi) foi política se pode deduzir pelo fato que, há algum tempo atrás, foi aprovada a lei do "justo processo" e que, no dia da morte dele, o Parlamento aprovou a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito que irá indagar sobre as eventuais omissões e os favorecimentos da Operação Mãos Limpas. Pois Craxi foi o único que admitiu o financiamento ilícito ao seu partido (não a corrupção), mas acusou todos os outros secretários de partidos de terem cometido o mesmo crime. Só ele e os democrata-cristãos pagaram. Os responsáveis comunistas ficaram de fora.

Agora estão todos chorando a perda do "pai do socialismo reformista" que está sendo reabilitado até na mídia que há pouco o insultava como chefe de uma quadrilha, o partido socialista, agora mimado e homenageado pelos companheiros de luta, presentemente no governo, em crise de números, de quorum, além de identidade.

Um antigo expoente do socialismo italiano, Giacomo Mancini, assim comentou a morte do estadista: "Foi morto pelo ódio político, siL FUNERALE DI cRAXIão hienas. Espero apenas que esta história sirva de lição aos que não querem que a política seja uma coisa humana".

Craxi, apesar das aparências, era tudo menos um político sem humanidade. Apreciava a inteligência, a coragem de quem sabia defender opiniões contrárias às suas e desprezava, profundamente, a "corte dos milagres" que o rodeava: os yesmen, os oportunistas, os anões culturais e os dançarinos políticos (prontos a mudar de fé política em troca de favores), sobre os quais tanto se falou, depois de sua queda, para denegrir o Bicho Papão Craxi.

Ele foi um homem que soube desafiar a história da esquerda, aquela escrita pelos "cérebros" do poder cultural, uma história que depositava no partido comunista o leadership moral e material, relegando os socialistas nos cantinhos obscuros reservados aos parentes pobres. Craxi soube denunciar os crimes do comunismo antes das conversões baratas pós queda do Muro de Berlim, soube desafiar o sindicato que pretendia condicionar o primeiro governo italiano do pós-guerra, guiado por um socialista (lembro a luta contra a inflação que passou de 21% ao ano, para 5%, depois da aprovação, através de um referendum, da lei que abolia a compensação automática das perdas salariais devidas à inflação). Soube despertar o respeito de Reagan libertando, com uma ação digna de Rambo, um coronel americano da Otan, raptado pelos terroristas comunistas das Brigadas Vermelhas, e participando da missão de paz no Libano, como soube encarar, no aeroporto de Sigonella, a Delta Force americana, no momento em que cometia ação de pirataria. Refiro-me à imposição norte-americana do desvio de rota de um avião egípcio, que transportava um chefe palestino, obrigando-o a pousar na Sicília. Na ocasião Craxi mandou as tropas italianas cercarem o avião, impedindo desta forma a piratagem.

"Um homem perigoso", assim o definiu Berlinguer, secretário do partido comunista. Perigoso para a esquerda "revolucionária" que estava muito distante da modernidade, da visão européia da política, do reformismo socialista, da terceira via, como hoje se chama, e que Craxi tinha enxergado há vinte anos. Este reformismo foi reapresentado há poucos dias, como uma roupa virada do lado do avesso, no congresso dos democráticos de esquerda (como hoje se chama o partido pós-comunista), que neste momento choram o compagno Craxi. Morto.